terça-feira, 19 de maio de 2009

Fábulas para o coração


Desde cedo, a tensão é componente permanente no campo das relações humanas. A vida pueril, embora mágica, grávida de fantasias e sonhos, não exclui os choques entre os indivíduos. Essa realidade é verificada no próprio processo de construção de amizades, onde as crianças nem sempre se identificam instantaneamente umas com as outras. Essa é uma etapa importante, a partir da qual se constituem as escolhas, predileções, opções pela tolerância em nome do afeto, representando os primeiros sinais para elaboração de uma estética comportamental includente.
Infância e amizade são binômio pivotal no campo de construção da subjetividade humana; fase e substântivo, ruas transversais, continente e contido, pólos que não se antagonizam, antes, se entremeiam um no outro para formar o lindo projeto de humanidade, pois não é difícil constatar que a criança é promotora de um olhar capaz de afinizar os descaminhos, compatibilizar os opostos, e isso a partir do encanto, da inocência e de uma 'paz perturbadora'.
Essa percepção se apederou de mim quando prôpus a meu sobrinho de cinco anos brincarmos de contar historinhas. Ele não estava muito afim, queria era brincar de monstro (claro que o monstro seria eu, e ele o super-herói), mas consegui dissuadi-lo ao inventar uma esdrúxula narrativa do encontro da sucuri ziguifrina com o tamanduá bandeira. Contei-lhe que ambos são espécies típicas do nosso Brasil; a cobra possuia um mortal abraço e o tamanduá o insólito hábito de comer formigas. Ao avistar Ziguifrina, o ingênuo tamanduá aproximou-se e a cumprimentou. A cobra muito astuta, encaminhou-se para abraçá-lo. Ele consentiu, porém, percebeu que aquele abraço demorava e o oprimia muito, quando então sugeriu à sucuri que lhe permitisse beijá-la. Tendo-o muito próximo ao corpo, sabia ela que o inocente tamanduá jamais lhe escaparia, por isso resolveu aliviar-lhe um pouco a opressão, consentindo o beijo. O que ela não sabia é que o pequeno bandeira, como era conhecido, trazia à boca uma centena de formigas saúvas, que foram de pronto depositadas em suas entranhas, fazendo-a contorcer-se a ponto de disparar em direção ao rio, desesperada para livrar-se do cardápio pedileto do 'little bandeira'.
Ora, não querendo dar trégua, pois já percebia meu ouvinte entre bocejos e piscar de olhos sonolentos ao final da fábula, despachei uma segunda. Agora, tratava-se do encontro do ursinho coala e a mamãe canguru.
A mamãe canguru buscava ao pé de uma árvore algum alimento para ela e seu filhote; o coala, agora órfão, pois se desgarrara de sua mãe, trepava nessa mesma árvore para comer folhas. Lentamente, o ursinho se dirigia a um galho, quando viu a mamãe canguru colhendo frutos. Isso o encheu de cólera, pois adotara aquela árvore como lar, cujos percipiendos frutos lhes pertenciam - dizia ele -, numa inarredável demonstração de convicção jurídica, que o compelia a uma espécie de exercício de cidadania animal.
Gritou alto:
- ei, não pegue os meus frutos!
A mamãe canguru respondeu:
- Mas você nem os come. Não fazem parte de sua dieta.
Nesse instante, o coala, exasperado pela emoção do embate, despencou da árvore, e veio pousar na bolsa da mamãe canguru, reunindo-se a seu filhote. Um pequeno bate-boca se iniciou, pois o bebê canguru não admitiu dividir o mesmo espaço com "um estranho no ninho", mas, ao tomar conhecimento de que o coala era órfão, instaurou-se uma atmosfera de compaixão e o pequeno ursinho incorporou-se à sua nova familia.
A essa altura, Vitor, meu sobrinho, já rendia-se a meu lado, tomado pelo sono, o que me levou a constatar que fui ouvinte e narrador, simultaneamente, de um delírio maravilhoso que só a infância e amizade dele poderiam provocar.
Esta experiência me levou a fortalecer a crença de que nossa alma pode, a despeito das tensões cotidianas, ser irrigada permanentemente pelas pulsões infantis, aquelas que revelam que a inocência pode produzir fugas criativas, como no caso do pequeno tamanduá; oxigenar a misericórdia, demonstrada na postura inclusiva da mamãe e bebê cangurus. Sei que podemos enxergar a infância - ao menos a lembrança dela - como o tempo em que os choques produzem alternativas para a comunhão, quando, por exemplo, dividiamos compulsoriamente um brinquedo com um primo que veio nos visitar no final de semana, onde as disputas conduzem todos à condição - ainda que alternando o primeiro lugar -, de campeões, pois no campo dos sonhos, das lindas viagens imaginativas, somos de fato.
Agora, a amizade de meu pequeno Vitor me faz robusto, com o coração cheio de fé de que um dia possa me tornar - ao menos para ele - um inescedível contador de historinhas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ensaio sobre o medo


Rendição e luta são as alternativas propostas pelo medo, companheiro implacável, incansável combatente daquela região sonhadora de nossa alma, na qual, a porta de entrada, invariavelmente, mostrar-se-á a de saída, a via perigosíssima, um atalho para o escape, o desejo de desistência, um fugaz desânimo, que logo se converte em perseverança.
Parece absurdo, mas, quando concebo o medo como um pólo imprescindível que se contrapõe e equilibra o ímpeto excessivo, a vontade desmedida e incapaz de ponderar, só consigo enxergá-lo como aquilo que dá sentido aos louros da conquista; o ingrediente essencial; o orvalho da manhã que, ao volatizar-se pelo calor do sol, se recomporá sob a forma de chuva, regando os vastos campos de nossa alma inquieta.
Na infância, a imagem do medo a povoar minha mente sempre foi a de um cavaleiro sombrio da idade média, que trás sobre si uma pesada armadura, nas mãos um escudo e uma longa e não menos pesada lança, onde o mesmo sempre irrompe em minha direção determinado a golpear-me mortalmente.
Essa alogoria, gerada pelo meu inconsciente, me provocou hoje o insight de que o tenebroso cavaleiro só se apresenta para a batalha protegido e armado, e não me refiro apenas ao escudo e dardo, mas, sobretudo, ao capacete. Esse, além de protegê-lo, esconde sua face dupla: uma que o mascara e compele sempre adiante, agressivo, altivo e aterredor; a outra, sempre oculta, encastelada num frio metal.
A relação que o medo nos impõe, portanto, é sempre tensa, violenta; tal qual um atacante feroz, o medonho cavaleiro se atira sobre nós, obrigando-nos a optar por uma, dentre duas alternativas: o recuo ou o combate.
Assim, encarar o medo não é tarefa fácil, pois ele está dentro de nós. Um inimigo externo enxergaríamos com clareza; o medo nos faz vacilar, duvidar, acomodar as coisas, reconhecer que baixar as armas será sempre a melhor saída. Mas, o que não sabemos, é que a vitória sobre o medo requer coragem não para enfrentarmos um adversário exterior, mas aquele que se origina no interior de nossos mais encantadores sonhos. E esta é a razão pela qual o medo salta em galopes estonteantes para intimidar, acuando-nos, sobretudo quando estamos tão próximos do êxito. Ele sabe que o sonho é sempre um convite para a comunhão, dividir a sensação de realização mesmo antes de se concretizar. O Raul dizia que "Sonho que se sonha junto é realidade". Sonhar junto é a essência do "maluco beleza", aquele que, serenamente, arrisca-se na peleja contra o medo em nome de seus sonhos. Ao contrário do medo (franco-atirador), o sonhador não se oculta, desnuda-se para galvanizar-se na esperança; não ataca, defende-se das setas de seu oponente para contra golpeá-lo com otimismo; não se insufla de arrogância, mas abriga-se sob o teto da humildade, convocando a todos para tomar carona em seu coração sonhador.
A impetuosa manifestação do medo, então, esconde um segredo, encobre uma verdade, para a qual, quase sempre estamos despreparados a encarar: enxergá-lo como uma ferramenta a nosso favor. Antes de qualquer conquista, ele se afigura terrível, nos faz sentir ansiedade, complexo de inferioridade, o mais órfão de todos os seres; com a vitória, a ansiedade cede lugar ao alívio; o complexo, ao mais alto grau de auto-confiança; a solidão, ao refrigério pelo reconhecimento.
Eis o segredo encoberto. A máscara foi destroçada ante a verdade e poder do sonho que anima e enche de cores luminosas o campo de batalha de onde nasce este inimigo e inseparável companheiro medo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Fome de vida


Não quero planos. Eu quero é vida! A quero por desconfiar das insandecidas batalhas que se trava em nome daqueles. Os planos são definidos por simetria inalterável. Não os quero. Desejo a curva vital que sugere sempre um novo roteiro a seguir, sem pressa ou assombro.
Quais os seus planos agora?, me indagaria um ingénuo amigo ao considerar-me vencido em algum pleito. Lhe diria simplesmente nenhum. Quero apenas, sereno, sentir o frio na espinha, o travo amargo de minha própria saliva, conviver com minhas dores, dissabores, odores da mesma fonte que um dia exalou minha fragrância favorita.
Ao contrário do que possam pensar os pseudo leitores de alma, não estou imerso em depressão alguma, tampouco tomado pelo pessimismo. Reclamo o direito de não ceder ao apelo doentio dos que não enxergam correspondência entre a quietude e o movimento dinâmico de nossa caminhada existencial.
Por que correr atrás da vida, se, quando o fazemos, só o que conseguimos é perseguir o vento?;
qual o sentido da angustiante batalha diária que enfrentamos sintetizada na frase "matar uns inocentes leões por dia"?;
por que perpetuar o masoquismo de "correr atrás do prejuízo"?
Ao vento, cumpre deixá-lo seguir seu curso incerto; que os leões mitifiquem as savanas africanas em seu perpétuo reinado; e o prejuízo, quando comigo cruzar, que não lhe atribua eu proporções desmedidas.
Tal qual a poetisa Adélia, tudo o que não desejo é faca, muito menos queijo: "eu quero é fome". Fome por uma vida mais contemplativa, livre das amarras do desespero. Liberdade para errar ou acertar no interior de minha própria calma; ser absurdamente feliz com meus erros e traumas; encantado pelos estados de ignorância.
Eu quero a vida! Não a que se confunde com existência. A segunda impõe sacrifícios, ansiedades, vaidades, idas e vindas, encenações..., a primeira é plenitude, virtude, encantamento, percorrer o tempo sem pressa, seguir passo a passo as etapas de uma receita não prescritiva.
Não quero planos. Quero guiar-me sob o auxílio de meu inseparável cajado, com o qual toco não a rocha da ira mosaica, mas as águas amargas do deserto; as águas de Mara, que antecipam doze fontes de águas vivas.
Não quero planos. Quero a paciência de um Moisés ancião, cujas forças se renovam na esperança, poeticamente traduzida nos quarenta anos de travessia desértica.
Não quero planos. Eu quero a vida que pulsa no perdão redentor de um Messias que revigora a esperança do ladrão em seu derradeiro momento de existência.
Não quero planos. Anseio por me tornar pescador, sem conhecimento prévio do ofício, apenas um humilde aprendiz que tece, lava e lança sua rede ao mar.
Eu quero é vida! Sim. Aquela que se confunde com a fome de viver calmamente, sem as pressões das disputas, patrocinadora de um caminho novo, cheio de paz.
Eu quero é vida!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A beleza da mudança




Queridos amigos, a mudança produz a ampliação do olhar que não apenas capta o que lhe é imediatamente aprazível, mas do que apreende a beleza sútil, espantosa, encantadora e que renova a existência ao encher-nos de possibilidades novas, novos riscos, livrando-nos do aprisco do medo e da mediocridade.
Certamente, em algum momento de nossa existência, sentimos a brisa leve e ao mesmo tempo impetuosa do desejo de mudança. Mudar de emprego, profissão, residência, enfim, simplesmente mudar. Esta é uma pulsão presente em todos nós, até para os que afirmam estar plenamente satisfeitos com a vida que levam. A necessidade de semear novidades no jardim de nosso palco existencial não implica necessariamente estar cansado da vida que se leva, mas, permitir-se acossar pela necessidade ínsita a todo o ser humano de colher os frutos de novas e renovadoras sementes.
A figura do jardineiro se mostra deveras oportuna para ajudar-nos a entender o quão extraordinário pode ser enfrentar o processo de mudança. Aquele em geral acorda cedo, e se esmera no trato com a terra; literalmente põe a 'mão na massa', pois, prepará-la para o plantio não admite reservas; é preciso tocá-la com o vigor de quem prepara uma massa de pão e a habilidade de um oleiro, porquanto, se o primeiro produz comida, o segundo, tal qual o jardineiro, nos oferta a beleza. Desse modo, é possível enxergarmos beleza em toda mudança. O belo nos dá prazer, inquieta, surpreende, às vezes até nos desconcerta. Como que à espera de uma chuva torrencial a alma anseia pelo belo. É um jardim a aguardar a substância essêncial que lhe dará vida, beleza, prazer.
A mudança é a companheira do jardineiro, já que seu ofício é dar à natureza condições para seguir seu curso, ou seja, mobilizar permanentemente os elementos na criação e recriação de belas flores, num ciclo inesgotável. Assim também os jardins de nossa alma podem produzir belíssimas flores, num processo infindável, em que o olhar, ao lançar as sementes do porvir, o faz por ter sido antes cativado pela beleza nascida da esperança.
Portanto, apostemos na mudança. Não a que encarcera a nossa coragem, mas a que nos liberta do casulo do medo; não a que entorpece os nossos sentidos, mas a que nos faz despertos; não a que retira sensibilidade do olhar, mas a que nos faz enxergar o belo na mais densa escuridão.
Mudança já!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A farra do boi

A violência na cidade de Salvador constitui o tema favorito de emissoras locais que a exploram ostensivamente a partir da espetacularização dos infelizes, tornados protagonistas num circo dos horrores cuja legitimação é concedida pela própria sociedade baiana.
Inegavelmente, violência rima com audiência, e essa máxima tem se expressado num alarmante exemplo de deserviço jornalístico prestado por indivíduos supostamente carismáticos, portadores de um discurso inflamado contra as mazelas sociais e que se intutulam porta-vozes do povo, representantes de uma espécie de jornalismo às avessas que contraria qualquer noção ou prescrição ética, visto que se orientam a partir da ridicularização dos eleitos "inimigos da ordem pública" - geralmente jovens negros e pobres oriundos das periferias soteropolitanas.
É impressionante constatar o conteúdo racista e discriminatório presente na fala dos atores dessa ala da comunicação baiana, e tal constatação pode ser feita por qualquer pessoa minimamente inteligente, sobretudo em razão da indignidade com que tais programas se comportaram no carnaval de 2009. Durante a folia momesca, em flagrante acordo com o governo do Estado, venderam a imagem de um carvaval de paz, tributaram ao mesmo Poder público que, com disfaçatez costumam criticar, os mais acalorados elogios; à polícia militar, renderam mil congratulações, mas não é de se estranhar, pois, parece haver dois Poderes vigentes: um durante e outro após o carnaval. A polícia, "responsável pela limpeza" (entenda-se extermínio de jovens pretos e pobres no pós-carnaval), não mediu esforços para salvaguardar a integridade física dos turistas - inclusive dos que aqui desembarcam para a prática do turismo sexual pedófilo. Os policiais militares, bem como os civis, cumpriram condignamente o seu papel, e, num fiel retrato de suas respectivas competências, superlotaram unidades de detenção com uma enorme massa de jovens igualmente pretos e pobres - homens e mulheres.
Nada de novo em nosso "Haiti".
E a tal imprensa do espetáculo, marcando presença na cobertura, embalada por Dalila e cheia de Kuduro, distribuia bajulação aos artistas - figurinhas carimbadas, fabricadas pela indústria dantesca de um carnaval que discrimina e exclui o povo de sua própria terra. Porém, a maior violência no carnaval 2009 seria perpetrada exatamente pelo pseudo-jornalismo, e, num desses horrendos programas, foi veiculada uma matéria - ou chamem do que quiserem -, onde aproximadamente trinta jovens (pretos e pobres) eram covardemente escarnecidos por um repórter, todos detidos por estarem supostamente envolvidos em brigas. Havia um, acusado de ter furtado a corrente de um turista estrangeiro, cuja humilhação me fez lembrar as caçadas empreendidas pelos capitães do mato, em geral também negros a serviço da classe hegemônica que, ao ser confrontado pelo turista - acima de qualquer suspeita e que não pronunciava uma palavra sequer em português -, clamava inocência, quando o então apresentador da tevê record mandava repetir um milhão de vezes seu clamor patético, tendo ao fundo uma música ridícula, onde o mesmo repetia: "olha a cara dele!" Essa frase, se bem analisada, reproduz os velhos estereótipos que os faz acreditar que a presunção de inocência não é compatível com a fisionomia de um preto, me levando afirmar que o poeta, se aqui estivesse, exclamaria: "Senhor Deus dos desgraçados, quanto horror perante os céus!"
Diante desse brutal cenário - perplexo pela inércia dos modorrentos agentes sociais que mais parecem estar tomados por uma espécie de embriaguez dionisíaca, incapazes de dedicarem um mísero tempo de questionamento a esta "farra do boi" -, não consigo enxergar senão a marca do velho darwinismo social do século XIX, consubstanciado na atual 'indústria da desinformação' baiana. Essa tem protagonizado o papel de difusora de um projeto racista secular, baseado na tentativa de animalisar o negro, suprimir sua dignidade atráves de estígmas que outrora buscou fundamentação na ciência biológica. Assim, após a morte de Darwin, consolidou-se uma corrente científica seduzida por sua teoria da evolução por seleção natural (darwinismo social), a qual postulou a idéia de que, analogamente aos princípios seletivos presentes nas interações biológicas, a vida social subordinava-se a tais processos; ou seja: o surgimento de características positivas nas espécies, propiciando-lhes adaptação adequada ao meio, tendiam a prevalecer, superando-se uma etapa num lento e complexo ciclo evolutivo que culminaria no aparecimento de uma nova espécie, mais apta; do mesmo modo, pressupunha-se que a evolução por seleção natural aplicava-se à vida em sociedade e, por inferência, brancos corresponderiam a uma etapa superior no ciclo evolutivo, e negros a uma categoria que só diferiria dos animais em razão da capacidade da fala.
Nesse sentido, pensar criticamente sobre esses espaços midiáticos constitui-se a pedra de toque para enxergarmos que os mesmos ampliam terrivelmente a vulnerabilidade de nossa comunidade negra, pois, se no passado o darwinismo social estendeu-se para a concepção eugênica (convicção na "pureza da raça branca" presente no discurso nazista na alemanha, Ku klux klan nos EUA, Africa do Sul e tantos outros onde a imprensa atuou como instrumento de legitimação), esta atual e caricata ala da imprensa baiana engaja-se no firme propósito de demonstrar uma espécie de "impureza" dos negros, materializado na singular expressão "pombo sujo".
Nessa perspectiva, a sombria lembrança de Cesare Lombrozzo é inevitável, pois esse italiano contribuiu decisivamente para o alargamento da ideologia racista no século XIX atráves de sua visão criminológica baseada na idéia do "criminoso nato". Nesse contexto, vale ressaltar que o mesmo viria influenciar fortemente o baiano Nina Rodrigues (lembrança igualmente sombria e referência máxima na medicina legal do Brasil) que, por meio de seus exames antopométricos - medidas de crânios de cadáveres de homens negros -, afirmaria que estes possuiam um significativo grau de inferioridade na escala humana, e, portanto, fortemente vocacionados ao crime.
Nessa direção, portanto, é claramente perceptível de que matriz resulta esta vergonhosa violência da imprensa baiana, tomada como referencial sombólico-discursivo que entorpece a sociedade como um todo, onde as mensagens ocultas contidas não apenas nas imagens dos corpos dos jovens negros violentamente assassinados como nos bordões "você tambem pode estar na mira" e "passa o rodo", concorrem para a legitimação da violência e do discurso racista na Bahia.

domingo, 31 de agosto de 2008

Manipulação moderna e o pensar autônomo




A modernidade inaugurou uma inesgotável fonte de possibilidades ao homem, e este mergulha , buscando consumir, em velocidade cada vez mais surpreendente, as fabricações neoliberais que tanto encarceram a individualidade e roubam a autonomia intelectual.
Desde sua concepção, o programa capitalista apontava para a constituição de uma sociedade ocidental baseada em uma absoluta coesão, num formato autoritário e manipulador incapaz de aceitar a diversidade. O pensamento burguês concebeu as bases para um modelo social no qual o indivíduo não poderia se pertencer, mas apenas atuar, sob a batuta da divisão social do trabalho, como peça que se incorpora à engrenagem do paradigma vigente. A modernidade afirmou tais pressupostos em nome de uma sociedade harmônica, cujos reflexos nos alcança em todas as dimensões da vida: no cartesiano sistema educacional, nas artes, música, mídia, enfim, na totalidade dos segmentos. Desse modo, busca-se rechaçar qualquer manifestação de idéias que não se enquadrem no roteiro do mercado, para o qual, somos fantoches guiados ao sabor das conveniências.
Nessa perspectiva, o modelo de educação vigente dilui a afirmação do indivíduo como construtor de idéias, pervertendo o sentido original do educar, qual seja humanizar para a cidadania, à medida que estigmatiza os indivíduos ao gerar um cisma educacional que os divide em uma minoria "capaz" e uma ampla maioria de "incapazes" e/ou "ruins"; as manifestações artísticas não raro vêem-se forçadas a não apenas cumprir seu papel de intérpretes da realidade, mas servir de instrumento ao doentio apelo comercial, no qual o mercado protagoniza a cena artística ao ditar os "modismos", em outras palavras, o que deve ser consumido. Embora a criatividade musical tão peculiar ao Brasil nos coteje com uma infinidade de gêneros, o que representa uma salutar convivência com o diverso, é de estranhar que pouquíssimas tendências predominem neste cenário, revelando, de acordo com o compositor Arnaldo Antunes, a necessidade de questionarmos os conteúdos massificantes impostos a partir do que significa nossa real necessidade ao perguntar "você tem fome de quê?"
Porém, a indústria não está preocupada em realizar nenhum processo de escuta, pois, ao capital, apenas interessa atuar sob a concepção de que as massas não passam de bestas-feras ávidas pelo novo, que se torna obsoleto ao cabo de poucos dias, e, nessa direção, a manipulação midiática desempenha um papel preponderante ao plano de captura do mercado, uma vez que impõe sua seletividade, caracterizada pelo critério puramente mercadológico, no qual a mediocridade é seu parâmetro.
No entanto, a dinâmica das relações sociais aponta alternativas que corroboram a percepção de que "o novo sempre vem", embora, na maioria das vezes, marcado por traumas. Assim foi com o processo de redemocratização que várias nações experimentaram no século vinte, para o qual, a inércia deu lugar ao dinamismo da mobilização política que relativizou regimes autoritários.
Diante disso, ao homem moderno se impõe o desafio de reinventar-se, de expandir-se, libertando-se dos violentos apelos midiáticos, os quais se orientam sob o propósito de fabricar consumidores homogêneos, tais como peças que se originam nos departamentos de produção das indústrias. Para tanto, vale a pena apostarmos na diversidade como promotora de uma estética comportamental que rompa com o implacável esquema de manipulação e vigilância a que estamos submetidos, exigindo do homem coragem para questionar a agenda moderna, que se traduz na ditadura do consumo dos dias festivos, nos enlatados programas televisivos, previsíveis pacotes artísticos, bem como no imperativo padrão da estética corporal - elementos comprometidos em suprimir qualquer proposta de originalidade.
Resta-nos, portanto, adotarmos uma dose de hostilidade aos mecanismos sociais alienantes, cujo discurso nega sistematicamente a possibilidade do homem agir e pensar sob critérios mais subjetivos, criando indivíduos cada vez mais iguais e insensíveis ao tirânico poder da manipulação dos tempos modernos.




















terça-feira, 5 de agosto de 2008

Big Brother: um olhar fulgurante








Queridos amigos, a semana passada a cidade do São Salvador da Bahia foi palco de mais um debate eleitoral, transmitido por uma emissora de TV, no qual os candidatos a prefeito reafirmaram a democracia como instrumento construtor dos nossos mais sublimes sonhos, docemente cultivados pela retórica e habilidade argumentativa, embora o fato mais marcante desse exercício democrático não tenha sido as tradicionais promessas, e sim, o "Big brother."
Imagino que neste exato momento você está começando a entrar num estado de perplexidade, já que é difícil imaginar um ponto de contato entre o consagrado programa global e um evento de discussão política; porém, há mais mistérios entre o Ryalith Show e as bravatas eleitoreiras do que sonha nosso vão pensamento, e tal constatação surgiu de uma curiosa proposta do candidato ACM Neto, o qual visa coibir a violência na primeira capital do Atlântico Sul a partir da instalação de câmeras de vídeo, cuja implantação se estenderia para toda a cidade. O interessante é que este 'olhar' permanente - estratégia oriunda da sociedade contemporânea do controle e da vigilância, descrita há muito por Michel Foucalt -, foi defendida pelo candidato Neto como um componente inovador no combate ao crime. Sua não menos inovadora forma de nomear o projeto (Big brother), revela que sua assesoria busca, no mínimo, acompanhar o diapasão dos fenômenos midiáticos, pois se o "Big Brother" da TV globo possui como principal característica o acesso de enorme parte da população nacional à intimidade das "celebridades instantâneas", o escopo de sua proposta reside no monitoramento das ruas, em que o Estado coloca-se em situação de vigília sobre os indivíduos, prometendo levar para o "paredão" os transgressores.
O candidato não mediu esforços para tentar demonstrar que seu diferencial em relação aos demais era a juventude, com a afirmação constante de que possuia o "brilho nos olhos", marca, segundo ele, fundamental para conduzir Salvador a uma nova era, a um momento de ruptura com práticas políticas que não mais se alinham com a emergência dos novos tempos. Porém, é difícil acreditar em novos tempos - pelo menos em matéria de política -, uma vez que a grande maioria das tentativas de inaugurar novas rotas para o exercício político no Brasil invariavelmente se frustram, pela necessidade das tais alianças que objetivam garantir governabilidade, bem como o gosto pelo poder, o qual parece exercer sobre os que lidam com a coisa pública um fascínio semelhante ao de uma criancinha em relação a um doce.
Certamente que promessas para adoção de medidas impactantes na área da segurança pública devem pautar-se numa visão descentralizada da administração municipal, pois imaginar o governo estadual como agente isolado no processo de realização da paz social é, no mínimo, um equívoco. Sob esse ângulo, a idéia de espalhar câmeras pela cidade de Salvador não parece ruim, porém, o tema começa a se problematizar à medida que a estrutura logística necessária seria de proporções gigantescas, sobretudo, em razão de tratar-se de uma das maiores metrópoles do país, cujo investimento distoa da emergente prioridade que deve-se assumir em relação à educação e saúde, por exemplo. Não obstante, ele evadiu da explicação de como o município construiria tamanha infra-estrutura, preferindo recorrer ao tal brilho no olhar, o qual, segundo pode-se inferir, corresponderia a um traço fundamental que deve caracterizar o perfil do novo gestor da cidade soteropolitana.
Após o término do entediante debate, percebi que não se tratava de mais um, e sim, daquele que pode vir a transformar-se num referencial de como as soluções para os problemas públicos dependem do fulgor no olhar do que rege ou propõe-se administrar a máquina pública, pois, segundo a teatral atuação do supostamente fulgurante candidato, a qual, mais parecia uma paródia do personagem "jovem", de Chico Anísio, é preciso superar a reacionária atitude dos que tentam por freios ao audaz espírito da juventude, onde, querido leitor(a), mantive a expectativa permanente de que a qualquer momento ele repetiria o falacioso bordão: "Pô, eu sou jovem! Jovem é outra coisa, jovem é outro papo..."
Conquanto tenha visto frustrada a minha expectativa, debrucei-me a pensar a questão da vigilância através de câmeras, não apenas sob a noção de que o delírio presente nos discursos políticos são capazes de tecer as mais inusitadas peças, mas, também, compreendendo como os fenômenos da mídia repercutem de tal modo, que nem as disputas eleitorais deixam escapar a oportunidade para apropriar-se deles a fim de consubstanciar suas falácias.
Não desejo, querido amigo(a), que construa uma imagem distorcida de minha pessoa, pois também sou ainda jovem, mas devo confessar-lhe que uma dose de neurastenia às vezes se faz necessária para contrapor essas pulsões que nascem da vaidade e sede de conquistar a qualquer custo. Reconheço o valor das idéias e ações que tenham por objetivo compartilhar com as diferentes esferas estatais o compromisso de combate ao crime, mas, - à semelhança mítica - fazer da discussão sobre segurança uma oportunidade para manifestações explícitas de narcisismo é por demais cômico.
Entretanto, esse 'Narciso' às avessas, não propõe-se a contemplar apenas a sua própria imagem, mas, também, a do 'povo brother', na qual a câmera representa sua presença - ainda que virtual - nos espaços públicos, buscando garantir seu cintilante e ao mesmo tempo frio e distante olhar.
Maurício Alves.