sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ética ou devaneio filosófico?


A instituição do Código Nacional de Trânsito no Brasil gerou a expectativa de que educar os motoristas talvez fosse uma missão possível. Infelizmente os índices de violência entre os condutores nos deixa a sensação de que este instrumento coativo não é o suficiente para que logremos êxito nesse difícil concurso. Basta observarmos a não adoção de atitudes tão absolutamente simples, como parar o carro diante da faixa de pedestres, na qual estes estejam atravessando, que logo nos salta uma questão: se a omissão a uma norma, cuja prática não necessitaria de previsão jurídica ao exercício é tão vergonhosamente desrespeitada, como crer na reversibilidade da des-educação dos nossos condutores?
A terrível marca da brutalidade no trânsito brasileiro me deixa perplexo, pois essa realidade urbana me leva a considerar o quanto a falta de educação e violência estão irmanadas. Ambas são como causa e efeito, elementos simbióticos alimentados pela total incapacidade de enxergar o outro, aquele-que-passa, de corpo inteiro, e que, em sua tentativa de seguir, se vê tolido, preso em zona livre, pois o sinal de simbologia ética (a faixa), que deveria refrear os que se guiam sobre 'pés' de borracha, não é suficiente para que o vejam.
De fato a faixa é uma vergonha, pois a sua implementação nas vias automobilísticas é uma tentativa desesperada de chamar atenção para o outro, de sensibilizar o motorista de que o horizonte asfáltico a sua frente não é tudo. A ironia reside no fato de que se para enxergar o outro recorre-se à listas brancas na pista, estamos mesmo perdidos!...; pois, ao ignorar o pedestre, o condutor não estará olhando em direção alguma, muito menos ao chão, pois se carne e osso não lhe perturbam, imagine se umas listinhas no asfalto o incomodarão!
Em verdade tal percepção se consolidou em mim quando em três ocasiões resolvi correr o risco -calculado é claro- de atravessar uma faixa no centro de Salvador, sob a esperança de que talvez o meu gesto pudesse ajudar na cegueira dos condutores. Péssima idéia, pois em todas as tentativas estive na iminência de ser atropelado, e o que é pior, em uma delas o indivíduo lançou-se em minha direção, numa demonstração de que o meu ato, em sua avaliação, corresponderia a um desafio, tamanha a fúria que dele se apoderou, gerando em mim a convicção de que é preciso pensar mil vezes antes de se tentar abrir os olhos a um cego.
Ora, se a faixa for verdadeiramente um símbolo ético, ao qual deve-se atentar pois sinaliza para a presença do outro, embora seja vergonhoso e demonstre nossa carência como entes civis a necessidade dela balizar parte de nosso comportamento no trânsito , desrespeitá-la significa omissão não só a uma previsão normativa, mas prova inconteste de que os homens que viviam em cavernas eram no mínimo mais prudentes que esta geração, pois os limites estavam naturalmente colocados, fosse na reclusão que o ímpeto de uma tempestado provocava, ou no recuo estratégico ao deparar-se com uma fera faminta.
Se os tão propalados valores éticos, cuja essência está assentada na percepção do outro como semelhante, e que configuram os limites à conduta pós-moderna se transformaram em devaneio filosófico, estamos mesmo experimentando um tremendo retrocesso, pois, se o homem primitivo descobriu a roda, as feras-cegas contemporâneas lhe deram uma função pouco auspiciosa.

sábado, 29 de agosto de 2009

Parabéns, amigão!


A educação compreende um processo no qual podemos construir os conteúdos básicos e os mais complexos em nossa trajetória como indivíduos; e não me refiro apenas à educação formal, aquela em que as convenções humanas costumam se incrustar, seja por mecanismos empobrecidos de avaliação - leia-se vestibular - marcados pela prerrogativa de premiar alguns em prejuízo de uma maioria estigmatizada pela noção de fracasso, percebidos, desde cedo, nos estágios iniciais da educação burocrática, amante dos egos de condutores educacionais cegos e insensíveis, mas refiro-me, sobretudo, ao projeto superior de educação, o qual realiza-se no palco e subjetividade dos sonhos, na fantasia capaz de fazer pulsar o mais débil coração. Falo da educação forjada a partir dos encontros, endereçada aos que, embora trôpegos aos olhos do mecanicismo pedagógico vigente, segue educando-se nas veredas da vida.

O educar-se pela vida não se confunde com o submeter-se a disciplinas, hierarquias, verticalismos autoritários e desconectados com a função de nossa existência, qual seja usufruir da ação pedagogizante e humanizadora da solidariedade, do respeito não imposto, da amizade. Nas palavras do saudoso Paulo Freire, reinventar-se (educar-se) na vida, se constata basicamente na capacidade de apreensão das mais sútis evidências de que o ambiente circundante está para além da percepção imediata, habita na capacidade de encantar-se com a beleza da higiene de sanitários escolares, jardins, cadeiras, enfim, com a ambiência só constatável aos que não sucumbiram ante os modelos pedrados da fôrma educacional.

Diante disso, proponho não a absoluta desinstitucionalização do roteiro educacional - pois seria utopia -, embora considere que frequentar obrigatoriamente uma escola não difere muito de um culto religioso, de assembléias em sinagogas, templos cristãos, mesquitas, mas o deflagrar de uma doce revolução que seja capaz de provocar uma ruptura com essa espécie de mobilidade pendular que a educação institucional estabeleceu como dogma.

O que seria então essa "doce revolução?" Tão somente a promoção de uma prática pedagógica que permitisse às crianças tempo para captarem os tesouros sutis do ambiente circundante; do universo que pode habitar uma casca de noz; da relatividade das verdades absolutas; da sinuosidade de uma linha reta; do encontro com pessoas; consigo mesmas; do questionamento; do pensamento. De fato os estudantes não tem tempo para pensar. O tempo que dispõem é para o cumprimento fetichista de tarefas. Einstein disse que enquanto esteve todo o tempo mergulhando em suas equações não conseguia decifrar o universo, mas, quando deixou-as um pouco de lado, teve tempo para pensar; então a relatividade geral e restrita brotaram tal qual as águas de uma represa a arrebentar suas comportas, e o universo inteirinho foi relativizado.

Tenho um querido amigo, seu nome é Rafael, dotado de inteligência e capacidade incomuns; sua generosidade é tão espontânea que o torna capaz de subverter a lógica das coisas... Qualquer pedido que lhe faço é como se estivesse lhe prestando um favor, tal a alegria que tem em servir. Ontem Rafa compartilhou comigo a sua alegria pela aprovação no vestibular da UFBA, porém, o que verdadeiramente o realizara não era a aprovação em si, pois era mais que previsível, mas a possibilidade de encher seus pais de orgulho. Esses de fato devem orgulhar-se dele e de si mesmos, pois as vitórias de seu primogênito são resultado de um investimento de muito amor, e, portanto, meu amigo é um grande exemplo de quem lê a vida fora do script institucional, pois a UFBA não é a Meca dos vestibulandos, mas o meio para retribuir aos que nele investiram.
Sucesso aos muitos Rafas que não se deslumbram com o 'ticket' de ingresso a uma respeitável instituição, mas faz dela um meio para instituir a pedagogia que se pratica na vida.
Parabéns, amigão!

sábado, 25 de julho de 2009

A voz do que clama no deserto


O deserto certamente não se mostra a mais convidativa das regiões, ao contrário, se nos afigura inóspito, carregado de vazios, silêncio aterrador, lugar inundado pelo vácuo do abandono. Porém, foi esse cenário antitético à beleza imediatamente perceptível o palco no qual um homem, cuja aparência inapreciável do ponto de vista dos cultores de uma simetria platônica, resolveu subverter a lógica a partir da decisão de lá exercer a sua pregação profética.
Há dois mil anos a perplexidade assombrou os mortais no Oriente médio, ou, se preferir, Ásia Menor, região que parece marcada para ser o centro nervoso do planeta, pois um profeta resolveu cingir os lombos como quem se imanta de uma justiça estranha aos homens; entregar-se a uma dieta capaz de escandalizar ao paladar mais tosco e bradar a voz ao vento, sob a convicção de que este é a mídia mais poderosa para veicular sua mensagem, mais que o terror dos homens-bomba a perplexificar o Ocidente em suas suicidas missões.
Eis então aquele a quem Cristo afirmou não assemelhar-se a um "caniço balançado pelo vento", tampouco alguém vestido em ricos trajes, mas o maior dentre os que de mulher haviam nascido, ressalvando, porém, que menor era este que o mais humilde cidadão de Seu Reino: o Reino dos Céus.
De fato a presença de João Batista no deserto inaugurou um período singular na história do reino de Israel, pois, a seu respeito, uma antiga profecia o identificava como "anjo", a "voz do que clama no deserto", enviado adiante da face de Cristo, o Messias rejeitado pelos seus e cuja tarefa era preparar o caminho do Senhor. Porém, há aspectos na missão de João extremamente ricos, sobretudo pela sutileza em que se apresentam.
Embora João não houvesse inaugurado o rito do batismo nas águas em Israel seu exercício se distingue de manifestações anteriores, já que o "segundo Elias" propõe aos que ao deserto vão encontrá-lo, a recomendação de que produzam "frutos dignos de arrependimento".
Ora, João Batista propõe aos que para as margens do Jordão eram impelidos ao despojamento das mazelas da alma, oferecia-lhes não uma fanfarrice, um culto a si mesmo pela suposta exteriorização de conversão a Deus; pelo contrário, João menciona que há alguém maior do que ele, do qual não era digno de levar as alpercatas, o Enviado que os batizaria com fogo e com Espírito Santo, demonstrando, de maneira inequívoca, que o batismo é ato contínuo, um permitir-se guiar constante pelas águas de repouso.
Há no entanto um traço de inegável poesia no ministério desse profeta, pois o deserto não seria a dimensão espacial própria a receber a eleição de campo evangelístico; sob as categorias humanas o deserto não é campo para semear, tampouco colher os frutos de uma entrega incondicional à seara de Deus. Lá nossos temores se exasperam; nossas fraquezas revelam a pequenez humana; as tentações se aconchegam na cumplicidade do silêncio e da solidão, e, mais que isso, no deserto não há gente, e sim a fantasmagoria de um passado antiquíssimo, onde o que foi já não é mais, e o que há de vir é apenas o indomável bailar do vento.
João é um homem sem estratégias, despido da mais sutil presunção missionária; é alguém disposto a viver e cumprir tão somente a missão que o Altíssimo lhe confiou. E o faz num cenário impensável...Porém, as almas cansadas vão ao seu encontro. Ali não há templos suntuosos, mas o céu como abrigo; não há reservatórios de água, mas o caudaloso rio a serpentear e oferece-lhes frescor; não há sacerdotes a pregar em plataformas, mas um homem a indicar-lhes a simplicidade do Caminho.
O deserto é mesmo um elemento revelador... A ele associamos sede, sol inclemente e vazio. Mas é para lá que o Batista foi clamar. Ali, no aparente nada, que o transbordar das muitas águas aliviou a sede de inúmeros; foi no deserto que as duras repreensões divinas soaram como cantigas de ninar; onde homens revelaram sua fragilidade tendo o sol e as águas do Jordão como testemunhas; foi ali que um certo João nos ensinou que devemos renunciar às máscaras e
sermos apenas o que somos, seres absolutamente dependentes Daquele que é Maior ao dizer: "É necessário que Ele cresça e eu diminua".
O exemplo de João nos ensina, dentre muitas coisas, que é necessário aprendermos a caminharmos nos desertos de nossa existência; aqueles cujos ventos da tolice e do egoísmo noticiam em redor o quanto refrigerar-se nos Jordões da humildade aquieta a alma, pois assim reconheceremos os limites de nosso papel na caminhada existencial, e aceitaremos que, diminuindo nós e crescendo Cristo, clamaremos a pacificação aos corações humanos num mundo desertificado.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Um "eca"! para os invisíveis

A exclusão em que vivem as crianças moradoras de rua no Brasil compreende uma de nossas grandes contradições, resultante do egoísmo de uma sociedade e Estado cruéis, hipócritas, incapazes de refletir e agir racionalmente em relação às suas mazelas. A ausência de políticas públicas promovem a invisibilidade desses indivíduos, pois tornaram-se um embaraço para o ente estatal uma vez que estão longe do topo das prioridades. Esses jovens ainda experimentam a rejeição generalizada, fruto do medo de uma população preconceituosa e que insiste em estereotipá-los, aprofundando sobremaneira a desigualdade que os domina.
Historicamente, o processo no qual se ampliou a percepção identitária acerca da criança, marcou-se por rupturas significativas. Tomando como referência a antiguidade clássica, a partir de Roma, o "gozo" da infância estava condicionado à avaliação do pai no que concerne ao estado físico da criança: se nela fosse identificado algum "defeito", possuía o genitor o direito de eliminá-la. Tal preceito se mostra atualmente repulsivo, porém, a continuidade da estrutura econômica romana, baseada nas guerras de conquista e escravização, impunha a existência de guerreiros aptos (sem mácula física) a servir à nação.
No medievo, período caracterizado pelo obscurantismo, a criança é vista como impura, em cujo processo educacional incidia a ironia, os castigos físicos e morais, embora no séc. XI Santo Anselmo contrastasse esse modelo a partir de uma pedagogia que valorizava a "gentileza e os bons exemplos".
Chegamos então à contemporaneidade, onde a concepção acerca da infância é construida sob caminhos sinuosos, desde a naturalidade com que se enxergava a presença infantil nas fábricas, obrigando uma postura mais positiva do Estado no sentido de contemplá-las no ordenamento jurídico, até a adoção de dispositivos legais voltados a não mais regulamentar a atividade laboral infantil, mas extinguí-la. A presença da criança nas fábricas é entendida agora como inadequada, a escola ganha o status de espaço próprio à construção da vida social.
No caso brasileiro, conquanto o vanguardista Estatuto da Criança e do adolescente (ECA) reflita a necessidade de um tratamento que considere a população infanto-juvenil a partir de sua vulnerabilidade - sobretudo os que "moram" nas ruas -, a sociedade e o Estado parecem exprimir um verdadeiro "eca!" ( expressão que denota nojo ) para essa questão. Esses jovens, oriundos dos bolsões de miséria, estão lançados à própria sorte, num processo de marginalização cuja intervenção do Estado se mostra eminentemente repressiva, marcada por tratamento desumano, haja vista os índices de assassinatos contra crianças e adolescentes que vivem nos grandes centros urbanos brasileiros perpetrados por grupos de extermínio - muitos dos componentes criminosos travestidos de policiais.
Cumpre observar também o quão perverso pode ser o conteúdo simbólico a recair sobre esse drama, pois a violência simbolicamente construída, cujo próposito é mascarar a realidade ao fazer repousar no inconsciente coletivo uma sensação de normalidade, compõe-se de uma sutiliza sem igual. O que dizer, por exemplo, daquele café da manhã dos sonhos patrocinado pelo extinto programa da Xuxa, acompanhado de seu sexualizante chamado: "E vem!, e vem! ,e vem!..."? Esse convite, construído sob o discurso de estímulo à adoção de hábitos alimentares saudáveis por parte das crianças, não se estendia, indubitavelmente, aos milhões de miseráveis filhos de nossa "pátria- mãe- gentil", revelando o descompasso, crueldade e sutileza mastodôntica das élites deste país em relação às contradições sociais.
Portanto, compreender o processo de exclusão de crianças moradoras de rua requer que atentemos para as diferentes concepções, em diferentes épocas, sobre a identidade destas, afim de perceber como se relacionam com nossa tragédia nacional. Em Roma antiga, a criança, vista sob a ótica funcional, não admitia deficiência física, condição intolerável porquanto inapta aos objetivos do Estado; hoje, a despeito do avanço na área dos Direito Humanos, a sociedade brasileira insiste em negá-los também ao segmento infanto-juvenil - negando-lhes portanto a infância -, pois este distoa do ideal familiar burguês, e, nesse sentido, sua inconveniente presença nas ruas nos constrange, impelindo-nos à rejeição. Nesse contexto, encontra-se imbricada a idéia de impureza das crianças, fortemente presente na Alta Idade Média. Os nossos atuais "impuros", sob todos os aspectos, parecem não merecer desfrutar da condição de sujeitos de direito, uma vez que a parca assistência que lhes é direcionada, provém, geralmente, de entidades não governamentais, cujas ações, embora altamente positivas, parecem produzir uma espécie de letargia estatal, percebida na falta de prioridade a esse problema. Não deve nos escapar que, embora nossas leis sejam comparáveis a um ordenamento jurídico escandinavo, pouco se verifica a observância delas em relação às "crianças de rua". Tal deficiência se faz identificar no desrespeito à pribição do trabalho infantil, cuja motivação reside na importância dada à escola, reconhecida como principal pilar à elaboração cívica. Esses jovens, quando, milagrosamente não são cooptados pelo crime, vêem-se explorados a torto e a direito, sobretudo na prestação de "favores" ( lavagem de carros, trabalhos domésticos etc. ) àqueles que deveriam, por um um dever cidadão, zelar pela garantia da dignidade humana.
Hipocrisia, egoismo e crueldade constituem ingredientes vitais ao aprofundamento do estado de vulnerabilidade a que estão expostas as crianças que residem nas ruas brasileiras. Se, por um lado, a inépcia do Poder Público corrobora tal situação, igualmente o faz a insensibilidade de uma sociedade que prefere fechar os olhos para uma tragédia assistida cotidianamente.

sábado, 23 de maio de 2009

Comunidade dos felizes


O palhaço é um dos personagens mais fascinantes que existem. Sua irreverência não encontra limites. Impressiona pela ludicidade, malícia e desfaçatez que brotam de cada ato realizado, seja uma piada ou brincadeira que constrangem e ao mesmo tempo alegram. Quem nunca riu de uma performance desse cara-pintada, cuja imagem, para mim, sempre foi a caricatura tradutora de uma certa alegria triste, um temor que o anima a atuar pelo medo de que as luzes da ribalta se apaguem?
Sempre apreendi o circo - a casa do palhaço - como um microcosmo refletindo nossa tentativa a permanecer no faz-de-conta, pelo fato de que nem sempre levamos em conta o tempo que desperdiçamos longe da alegria. O cenário circense compreende uma extensão daquela dimensão interior escondida, na qual é possível e adequado ser um peixe fora d'agua, um cisne entre patos, um sapo-príncipe capaz de encantar a mais linda donzela.
Assim como não há festa sem anfitrião, não pode haver circo sem palhaço: ele é o maestro sob as lonas; o picadeiro é seu palco, território impenetrável aos que não sabem fazer da vida um eterno festim.
O circo é a comunidade dos felizes, e o palhaço, qual poeta a ritmar gestos e frases aparentemente desconexas, reflete a graça estereotipada da criança em tenra idade - alegria caótica em meio à ordem do encanto.
O circo acorda, se ergue. Nele, o palco é comum a todos. O trapezista voa, num vai e vem hipnótico e de pura tensão; o equilibrista impressiona pela destreza, e o palhaço, um trapalhão sem igual, é a inequívoca desordem da alegria.
Nossa vida deveria reproduzir a arte circense, caracterizada por um incessante desejo de celebração. O problema é que o palhaço, dentro de nós, quase sempre é preterido pelo desafio do trapézio, com suas idas e vindas, e, quando dele cansamos, só resta nos lançarmos a alguma rede de amparo. À semelhança do circo, o trapézio da vida se compõe de uma apreensão, uma vontade de que a incerteza do vai e vem logo acabe, e, se ao final saimos ilesos, então lembramo-nos de que só uma boa palhaçada para alegrar o coração.
Em uma sociedade marcada pelas emulações insanas, valores deturpados, consciências cativas a um sistema que forja seres supérfluos como crianças a girar num carrossel de vaidades, a palavra palhaço passou a ser pejorativamente designada representação da imbecilidade humana. Nos palcos ilusórios da arrogância, o palhaço não tem vez, recebe o castigo do degredo por se insurgir contra os que tentam negá-lo através de uma alegria artificial dos seres claudicantes de um picadeiro sem graça. Para o palhaço, "o show tem que continuar", pois nele mora a alma do artista, um artífice a dar forma ao seu objeto: o riso.
Paradoxalmente, os que claudicam tentando negar-lhe a maestria na arte de fazer rir, sempre o invocam para servir a seus propósitos, ou não é verdade que os maus políticos, por exemplo, se nos afiguram palhaços ao investir-se de uma retórica pitoresca?
Ao palhaço, cultor da arte rara ( fazer rir), devemos abrir as portas do coração, para que não seja mitigada a alegria, amparo às inevitáveis quedas que experimentamos. Cultivemos esse companheiro oculto presente em nosso interior, sob pena de mergulharmos nas trevas do mau- humor, no fardo da neurastenia precoce. Iluminemos os candelabros que aquecem o coração com boas palhaçadas e perseveremos em vigílias constantes para que essa chama nunca se apague.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Fábulas para o coração


Desde cedo, a tensão é componente permanente no campo das relações humanas. A vida pueril, embora mágica, grávida de fantasias e sonhos, não exclui os choques entre os indivíduos. Essa realidade é verificada no próprio processo de construção de amizades, onde as crianças nem sempre se identificam instantaneamente umas com as outras. Essa é uma etapa importante, a partir da qual se constituem as escolhas, predileções, opções pela tolerância em nome do afeto, representando os primeiros sinais para elaboração de uma estética comportamental includente.
Infância e amizade são binômio pivotal no campo de construção da subjetividade humana; fase e substântivo, ruas transversais, continente e contido, pólos que não se antagonizam, antes, se entremeiam um no outro para formar o lindo projeto de humanidade, pois não é difícil constatar que a criança é promotora de um olhar capaz de afinizar os descaminhos, compatibilizar os opostos, e isso a partir do encanto, da inocência e de uma 'paz perturbadora'.
Essa percepção se apederou de mim quando prôpus a meu sobrinho de cinco anos brincarmos de contar historinhas. Ele não estava muito afim, queria era brincar de monstro (claro que o monstro seria eu, e ele o super-herói), mas consegui dissuadi-lo ao inventar uma esdrúxula narrativa do encontro da sucuri ziguifrina com o tamanduá bandeira. Contei-lhe que ambos são espécies típicas do nosso Brasil; a cobra possuia um mortal abraço e o tamanduá o insólito hábito de comer formigas. Ao avistar Ziguifrina, o ingênuo tamanduá aproximou-se e a cumprimentou. A cobra muito astuta, encaminhou-se para abraçá-lo. Ele consentiu, porém, percebeu que aquele abraço demorava e o oprimia muito, quando então sugeriu à sucuri que lhe permitisse beijá-la. Tendo-o muito próximo ao corpo, sabia ela que o inocente tamanduá jamais lhe escaparia, por isso resolveu aliviar-lhe um pouco a opressão, consentindo o beijo. O que ela não sabia é que o pequeno bandeira, como era conhecido, trazia à boca uma centena de formigas saúvas, que foram de pronto depositadas em suas entranhas, fazendo-a contorcer-se a ponto de disparar em direção ao rio, desesperada para livrar-se do cardápio pedileto do 'little bandeira'.
Ora, não querendo dar trégua, pois já percebia meu ouvinte entre bocejos e piscar de olhos sonolentos ao final da fábula, despachei uma segunda. Agora, tratava-se do encontro do ursinho coala e a mamãe canguru.
A mamãe canguru buscava ao pé de uma árvore algum alimento para ela e seu filhote; o coala, agora órfão, pois se desgarrara de sua mãe, trepava nessa mesma árvore para comer folhas. Lentamente, o ursinho se dirigia a um galho, quando viu a mamãe canguru colhendo frutos. Isso o encheu de cólera, pois adotara aquela árvore como lar, cujos percipiendos frutos lhes pertenciam - dizia ele -, numa inarredável demonstração de convicção jurídica, que o compelia a uma espécie de exercício de cidadania animal.
Gritou alto:
- ei, não pegue os meus frutos!
A mamãe canguru respondeu:
- Mas você nem os come. Não fazem parte de sua dieta.
Nesse instante, o coala, exasperado pela emoção do embate, despencou da árvore, e veio pousar na bolsa da mamãe canguru, reunindo-se a seu filhote. Um pequeno bate-boca se iniciou, pois o bebê canguru não admitiu dividir o mesmo espaço com "um estranho no ninho", mas, ao tomar conhecimento de que o coala era órfão, instaurou-se uma atmosfera de compaixão e o pequeno ursinho incorporou-se à sua nova familia.
A essa altura, Vitor, meu sobrinho, já rendia-se a meu lado, tomado pelo sono, o que me levou a constatar que fui ouvinte e narrador, simultaneamente, de um delírio maravilhoso que só a infância e amizade dele poderiam provocar.
Esta experiência me levou a fortalecer a crença de que nossa alma pode, a despeito das tensões cotidianas, ser irrigada permanentemente pelas pulsões infantis, aquelas que revelam que a inocência pode produzir fugas criativas, como no caso do pequeno tamanduá; oxigenar a misericórdia, demonstrada na postura inclusiva da mamãe e bebê cangurus. Sei que podemos enxergar a infância - ao menos a lembrança dela - como o tempo em que os choques produzem alternativas para a comunhão, quando, por exemplo, dividiamos compulsoriamente um brinquedo com um primo que veio nos visitar no final de semana, onde as disputas conduzem todos à condição - ainda que alternando o primeiro lugar -, de campeões, pois no campo dos sonhos, das lindas viagens imaginativas, somos de fato.
Agora, a amizade de meu pequeno Vitor me faz robusto, com o coração cheio de fé de que um dia possa me tornar - ao menos para ele - um inescedível contador de historinhas.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ensaio sobre o medo


Rendição e luta são as alternativas propostas pelo medo, companheiro implacável, incansável combatente daquela região sonhadora de nossa alma, na qual, a porta de entrada, invariavelmente, mostrar-se-á a de saída, a via perigosíssima, um atalho para o escape, o desejo de desistência, um fugaz desânimo, que logo se converte em perseverança.
Parece absurdo, mas, quando concebo o medo como um pólo imprescindível que se contrapõe e equilibra o ímpeto excessivo, a vontade desmedida e incapaz de ponderar, só consigo enxergá-lo como aquilo que dá sentido aos louros da conquista; o ingrediente essencial; o orvalho da manhã que, ao volatizar-se pelo calor do sol, se recomporá sob a forma de chuva, regando os vastos campos de nossa alma inquieta.
Na infância, a imagem do medo a povoar minha mente sempre foi a de um cavaleiro sombrio da idade média, que trás sobre si uma pesada armadura, nas mãos um escudo e uma longa e não menos pesada lança, onde o mesmo sempre irrompe em minha direção determinado a golpear-me mortalmente.
Essa alogoria, gerada pelo meu inconsciente, me provocou hoje o insight de que o tenebroso cavaleiro só se apresenta para a batalha protegido e armado, e não me refiro apenas ao escudo e dardo, mas, sobretudo, ao capacete. Esse, além de protegê-lo, esconde sua face dupla: uma que o mascara e compele sempre adiante, agressivo, altivo e aterredor; a outra, sempre oculta, encastelada num frio metal.
A relação que o medo nos impõe, portanto, é sempre tensa, violenta; tal qual um atacante feroz, o medonho cavaleiro se atira sobre nós, obrigando-nos a optar por uma, dentre duas alternativas: o recuo ou o combate.
Assim, encarar o medo não é tarefa fácil, pois ele está dentro de nós. Um inimigo externo enxergaríamos com clareza; o medo nos faz vacilar, duvidar, acomodar as coisas, reconhecer que baixar as armas será sempre a melhor saída. Mas, o que não sabemos, é que a vitória sobre o medo requer coragem não para enfrentarmos um adversário exterior, mas aquele que se origina no interior de nossos mais encantadores sonhos. E esta é a razão pela qual o medo salta em galopes estonteantes para intimidar, acuando-nos, sobretudo quando estamos tão próximos do êxito. Ele sabe que o sonho é sempre um convite para a comunhão, dividir a sensação de realização mesmo antes de se concretizar. O Raul dizia que "Sonho que se sonha junto é realidade". Sonhar junto é a essência do "maluco beleza", aquele que, serenamente, arrisca-se na peleja contra o medo em nome de seus sonhos. Ao contrário do medo (franco-atirador), o sonhador não se oculta, desnuda-se para galvanizar-se na esperança; não ataca, defende-se das setas de seu oponente para contra golpeá-lo com otimismo; não se insufla de arrogância, mas abriga-se sob o teto da humildade, convocando a todos para tomar carona em seu coração sonhador.
A impetuosa manifestação do medo, então, esconde um segredo, encobre uma verdade, para a qual, quase sempre estamos despreparados a encarar: enxergá-lo como uma ferramenta a nosso favor. Antes de qualquer conquista, ele se afigura terrível, nos faz sentir ansiedade, complexo de inferioridade, o mais órfão de todos os seres; com a vitória, a ansiedade cede lugar ao alívio; o complexo, ao mais alto grau de auto-confiança; a solidão, ao refrigério pelo reconhecimento.
Eis o segredo encoberto. A máscara foi destroçada ante a verdade e poder do sonho que anima e enche de cores luminosas o campo de batalha de onde nasce este inimigo e inseparável companheiro medo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Fome de vida


Não quero planos. Eu quero é vida! A quero por desconfiar das insandecidas batalhas que se trava em nome daqueles. Os planos são definidos por simetria inalterável. Não os quero. Desejo a curva vital que sugere sempre um novo roteiro a seguir, sem pressa ou assombro.
Quais os seus planos agora?, me indagaria um ingénuo amigo ao considerar-me vencido em algum pleito. Lhe diria simplesmente nenhum. Quero apenas, sereno, sentir o frio na espinha, o travo amargo de minha própria saliva, conviver com minhas dores, dissabores, odores da mesma fonte que um dia exalou minha fragrância favorita.
Ao contrário do que possam pensar os pseudo leitores de alma, não estou imerso em depressão alguma, tampouco tomado pelo pessimismo. Reclamo o direito de não ceder ao apelo doentio dos que não enxergam correspondência entre a quietude e o movimento dinâmico de nossa caminhada existencial.
Por que correr atrás da vida, se, quando o fazemos, só o que conseguimos é perseguir o vento?;
qual o sentido da angustiante batalha diária que enfrentamos sintetizada na frase "matar uns inocentes leões por dia"?;
por que perpetuar o masoquismo de "correr atrás do prejuízo"?
Ao vento, cumpre deixá-lo seguir seu curso incerto; que os leões mitifiquem as savanas africanas em seu perpétuo reinado; e o prejuízo, quando comigo cruzar, que não lhe atribua eu proporções desmedidas.
Tal qual a poetisa Adélia, tudo o que não desejo é faca, muito menos queijo: "eu quero é fome". Fome por uma vida mais contemplativa, livre das amarras do desespero. Liberdade para errar ou acertar no interior de minha própria calma; ser absurdamente feliz com meus erros e traumas; encantado pelos estados de ignorância.
Eu quero a vida! Não a que se confunde com existência. A segunda impõe sacrifícios, ansiedades, vaidades, idas e vindas, encenações..., a primeira é plenitude, virtude, encantamento, percorrer o tempo sem pressa, seguir passo a passo as etapas de uma receita não prescritiva.
Não quero planos. Quero guiar-me sob o auxílio de meu inseparável cajado, com o qual toco não a rocha da ira mosaica, mas as águas amargas do deserto; as águas de Mara, que antecipam doze fontes de águas vivas.
Não quero planos. Quero a paciência de um Moisés ancião, cujas forças se renovam na esperança, poeticamente traduzida nos quarenta anos de travessia desértica.
Não quero planos. Eu quero a vida que pulsa no perdão redentor de um Messias que revigora a esperança do ladrão em seu derradeiro momento de existência.
Não quero planos. Anseio por me tornar pescador, sem conhecimento prévio do ofício, apenas um humilde aprendiz que tece, lava e lança sua rede ao mar.
Eu quero é vida! Sim. Aquela que se confunde com a fome de viver calmamente, sem as pressões das disputas, patrocinadora de um caminho novo, cheio de paz.
Eu quero é vida!

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A beleza da mudança




Queridos amigos, a mudança produz a ampliação do olhar que não apenas capta o que lhe é imediatamente aprazível, mas do que apreende a beleza sútil, espantosa, encantadora e que renova a existência ao encher-nos de possibilidades novas, novos riscos, livrando-nos do aprisco do medo e da mediocridade.
Certamente, em algum momento de nossa existência, sentimos a brisa leve e ao mesmo tempo impetuosa do desejo de mudança. Mudar de emprego, profissão, residência, enfim, simplesmente mudar. Esta é uma pulsão presente em todos nós, até para os que afirmam estar plenamente satisfeitos com a vida que levam. A necessidade de semear novidades no jardim de nosso palco existencial não implica necessariamente estar cansado da vida que se leva, mas, permitir-se acossar pela necessidade ínsita a todo o ser humano de colher os frutos de novas e renovadoras sementes.
A figura do jardineiro se mostra deveras oportuna para ajudar-nos a entender o quão extraordinário pode ser enfrentar o processo de mudança. Aquele em geral acorda cedo, e se esmera no trato com a terra; literalmente põe a 'mão na massa', pois, prepará-la para o plantio não admite reservas; é preciso tocá-la com o vigor de quem prepara uma massa de pão e a habilidade de um oleiro, porquanto, se o primeiro produz comida, o segundo, tal qual o jardineiro, nos oferta a beleza. Desse modo, é possível enxergarmos beleza em toda mudança. O belo nos dá prazer, inquieta, surpreende, às vezes até nos desconcerta. Como que à espera de uma chuva torrencial a alma anseia pelo belo. É um jardim a aguardar a substância essêncial que lhe dará vida, beleza, prazer.
A mudança é a companheira do jardineiro, já que seu ofício é dar à natureza condições para seguir seu curso, ou seja, mobilizar permanentemente os elementos na criação e recriação de belas flores, num ciclo inesgotável. Assim também os jardins de nossa alma podem produzir belíssimas flores, num processo infindável, em que o olhar, ao lançar as sementes do porvir, o faz por ter sido antes cativado pela beleza nascida da esperança.
Portanto, apostemos na mudança. Não a que encarcera a nossa coragem, mas a que nos liberta do casulo do medo; não a que entorpece os nossos sentidos, mas a que nos faz despertos; não a que retira sensibilidade do olhar, mas a que nos faz enxergar o belo na mais densa escuridão.
Mudança já!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A farra do boi

A violência na cidade de Salvador constitui o tema favorito de emissoras locais que a exploram ostensivamente a partir da espetacularização dos infelizes, tornados protagonistas num circo dos horrores cuja legitimação é concedida pela própria sociedade baiana.
Inegavelmente, violência rima com audiência, e essa máxima tem se expressado num alarmante exemplo de deserviço jornalístico prestado por indivíduos supostamente carismáticos, portadores de um discurso inflamado contra as mazelas sociais e que se intutulam porta-vozes do povo, representantes de uma espécie de jornalismo às avessas que contraria qualquer noção ou prescrição ética, visto que se orientam a partir da ridicularização dos eleitos "inimigos da ordem pública" - geralmente jovens negros e pobres oriundos das periferias soteropolitanas.
É impressionante constatar o conteúdo racista e discriminatório presente na fala dos atores dessa ala da comunicação baiana, e tal constatação pode ser feita por qualquer pessoa minimamente inteligente, sobretudo em razão da indignidade com que tais programas se comportaram no carnaval de 2009. Durante a folia momesca, em flagrante acordo com o governo do Estado, venderam a imagem de um carvaval de paz, tributaram ao mesmo Poder público que, com disfaçatez costumam criticar, os mais acalorados elogios; à polícia militar, renderam mil congratulações, mas não é de se estranhar, pois, parece haver dois Poderes vigentes: um durante e outro após o carnaval. A polícia, "responsável pela limpeza" (entenda-se extermínio de jovens pretos e pobres no pós-carnaval), não mediu esforços para salvaguardar a integridade física dos turistas - inclusive dos que aqui desembarcam para a prática do turismo sexual pedófilo. Os policiais militares, bem como os civis, cumpriram condignamente o seu papel, e, num fiel retrato de suas respectivas competências, superlotaram unidades de detenção com uma enorme massa de jovens igualmente pretos e pobres - homens e mulheres.
Nada de novo em nosso "Haiti".
E a tal imprensa do espetáculo, marcando presença na cobertura, embalada por Dalila e cheia de Kuduro, distribuia bajulação aos artistas - figurinhas carimbadas, fabricadas pela indústria dantesca de um carnaval que discrimina e exclui o povo de sua própria terra. Porém, a maior violência no carnaval 2009 seria perpetrada exatamente pelo pseudo-jornalismo, e, num desses horrendos programas, foi veiculada uma matéria - ou chamem do que quiserem -, onde aproximadamente trinta jovens (pretos e pobres) eram covardemente escarnecidos por um repórter, todos detidos por estarem supostamente envolvidos em brigas. Havia um, acusado de ter furtado a corrente de um turista estrangeiro, cuja humilhação me fez lembrar as caçadas empreendidas pelos capitães do mato, em geral também negros a serviço da classe hegemônica que, ao ser confrontado pelo turista - acima de qualquer suspeita e que não pronunciava uma palavra sequer em português -, clamava inocência, quando o então apresentador da tevê record mandava repetir um milhão de vezes seu clamor patético, tendo ao fundo uma música ridícula, onde o mesmo repetia: "olha a cara dele!" Essa frase, se bem analisada, reproduz os velhos estereótipos que os faz acreditar que a presunção de inocência não é compatível com a fisionomia de um preto, me levando afirmar que o poeta, se aqui estivesse, exclamaria: "Senhor Deus dos desgraçados, quanto horror perante os céus!"
Diante desse brutal cenário - perplexo pela inércia dos modorrentos agentes sociais que mais parecem estar tomados por uma espécie de embriaguez dionisíaca, incapazes de dedicarem um mísero tempo de questionamento a esta "farra do boi" -, não consigo enxergar senão a marca do velho darwinismo social do século XIX, consubstanciado na atual 'indústria da desinformação' baiana. Essa tem protagonizado o papel de difusora de um projeto racista secular, baseado na tentativa de animalisar o negro, suprimir sua dignidade atráves de estígmas que outrora buscou fundamentação na ciência biológica. Assim, após a morte de Darwin, consolidou-se uma corrente científica seduzida por sua teoria da evolução por seleção natural (darwinismo social), a qual postulou a idéia de que, analogamente aos princípios seletivos presentes nas interações biológicas, a vida social subordinava-se a tais processos; ou seja: o surgimento de características positivas nas espécies, propiciando-lhes adaptação adequada ao meio, tendiam a prevalecer, superando-se uma etapa num lento e complexo ciclo evolutivo que culminaria no aparecimento de uma nova espécie, mais apta; do mesmo modo, pressupunha-se que a evolução por seleção natural aplicava-se à vida em sociedade e, por inferência, brancos corresponderiam a uma etapa superior no ciclo evolutivo, e negros a uma categoria que só diferiria dos animais em razão da capacidade da fala.
Nesse sentido, pensar criticamente sobre esses espaços midiáticos constitui-se a pedra de toque para enxergarmos que os mesmos ampliam terrivelmente a vulnerabilidade de nossa comunidade negra, pois, se no passado o darwinismo social estendeu-se para a concepção eugênica (convicção na "pureza da raça branca" presente no discurso nazista na alemanha, Ku klux klan nos EUA, Africa do Sul e tantos outros onde a imprensa atuou como instrumento de legitimação), esta atual e caricata ala da imprensa baiana engaja-se no firme propósito de demonstrar uma espécie de "impureza" dos negros, materializado na singular expressão "pombo sujo".
Nessa perspectiva, a sombria lembrança de Cesare Lombrozzo é inevitável, pois esse italiano contribuiu decisivamente para o alargamento da ideologia racista no século XIX atráves de sua visão criminológica baseada na idéia do "criminoso nato". Nesse contexto, vale ressaltar que o mesmo viria influenciar fortemente o baiano Nina Rodrigues (lembrança igualmente sombria e referência máxima na medicina legal do Brasil) que, por meio de seus exames antopométricos - medidas de crânios de cadáveres de homens negros -, afirmaria que estes possuiam um significativo grau de inferioridade na escala humana, e, portanto, fortemente vocacionados ao crime.
Nessa direção, portanto, é claramente perceptível de que matriz resulta esta vergonhosa violência da imprensa baiana, tomada como referencial sombólico-discursivo que entorpece a sociedade como um todo, onde as mensagens ocultas contidas não apenas nas imagens dos corpos dos jovens negros violentamente assassinados como nos bordões "você tambem pode estar na mira" e "passa o rodo", concorrem para a legitimação da violência e do discurso racista na Bahia.

domingo, 31 de agosto de 2008

Manipulação moderna e o pensar autônomo




A modernidade inaugurou uma inesgotável fonte de possibilidades ao homem, e este mergulha , buscando consumir, em velocidade cada vez mais surpreendente, as fabricações neoliberais que tanto encarceram a individualidade e roubam a autonomia intelectual.
Desde sua concepção, o programa capitalista apontava para a constituição de uma sociedade ocidental baseada em uma absoluta coesão, num formato autoritário e manipulador incapaz de aceitar a diversidade. O pensamento burguês concebeu as bases para um modelo social no qual o indivíduo não poderia se pertencer, mas apenas atuar, sob a batuta da divisão social do trabalho, como peça que se incorpora à engrenagem do paradigma vigente. A modernidade afirmou tais pressupostos em nome de uma sociedade harmônica, cujos reflexos nos alcança em todas as dimensões da vida: no cartesiano sistema educacional, nas artes, música, mídia, enfim, na totalidade dos segmentos. Desse modo, busca-se rechaçar qualquer manifestação de idéias que não se enquadrem no roteiro do mercado, para o qual, somos fantoches guiados ao sabor das conveniências.
Nessa perspectiva, o modelo de educação vigente dilui a afirmação do indivíduo como construtor de idéias, pervertendo o sentido original do educar, qual seja humanizar para a cidadania, à medida que estigmatiza os indivíduos ao gerar um cisma educacional que os divide em uma minoria "capaz" e uma ampla maioria de "incapazes" e/ou "ruins"; as manifestações artísticas não raro vêem-se forçadas a não apenas cumprir seu papel de intérpretes da realidade, mas servir de instrumento ao doentio apelo comercial, no qual o mercado protagoniza a cena artística ao ditar os "modismos", em outras palavras, o que deve ser consumido. Embora a criatividade musical tão peculiar ao Brasil nos coteje com uma infinidade de gêneros, o que representa uma salutar convivência com o diverso, é de estranhar que pouquíssimas tendências predominem neste cenário, revelando, de acordo com o compositor Arnaldo Antunes, a necessidade de questionarmos os conteúdos massificantes impostos a partir do que significa nossa real necessidade ao perguntar "você tem fome de quê?"
Porém, a indústria não está preocupada em realizar nenhum processo de escuta, pois, ao capital, apenas interessa atuar sob a concepção de que as massas não passam de bestas-feras ávidas pelo novo, que se torna obsoleto ao cabo de poucos dias, e, nessa direção, a manipulação midiática desempenha um papel preponderante ao plano de captura do mercado, uma vez que impõe sua seletividade, caracterizada pelo critério puramente mercadológico, no qual a mediocridade é seu parâmetro.
No entanto, a dinâmica das relações sociais aponta alternativas que corroboram a percepção de que "o novo sempre vem", embora, na maioria das vezes, marcado por traumas. Assim foi com o processo de redemocratização que várias nações experimentaram no século vinte, para o qual, a inércia deu lugar ao dinamismo da mobilização política que relativizou regimes autoritários.
Diante disso, ao homem moderno se impõe o desafio de reinventar-se, de expandir-se, libertando-se dos violentos apelos midiáticos, os quais se orientam sob o propósito de fabricar consumidores homogêneos, tais como peças que se originam nos departamentos de produção das indústrias. Para tanto, vale a pena apostarmos na diversidade como promotora de uma estética comportamental que rompa com o implacável esquema de manipulação e vigilância a que estamos submetidos, exigindo do homem coragem para questionar a agenda moderna, que se traduz na ditadura do consumo dos dias festivos, nos enlatados programas televisivos, previsíveis pacotes artísticos, bem como no imperativo padrão da estética corporal - elementos comprometidos em suprimir qualquer proposta de originalidade.
Resta-nos, portanto, adotarmos uma dose de hostilidade aos mecanismos sociais alienantes, cujo discurso nega sistematicamente a possibilidade do homem agir e pensar sob critérios mais subjetivos, criando indivíduos cada vez mais iguais e insensíveis ao tirânico poder da manipulação dos tempos modernos.




















terça-feira, 5 de agosto de 2008

Big Brother: um olhar fulgurante








Queridos amigos, a semana passada a cidade do São Salvador da Bahia foi palco de mais um debate eleitoral, transmitido por uma emissora de TV, no qual os candidatos a prefeito reafirmaram a democracia como instrumento construtor dos nossos mais sublimes sonhos, docemente cultivados pela retórica e habilidade argumentativa, embora o fato mais marcante desse exercício democrático não tenha sido as tradicionais promessas, e sim, o "Big brother."
Imagino que neste exato momento você está começando a entrar num estado de perplexidade, já que é difícil imaginar um ponto de contato entre o consagrado programa global e um evento de discussão política; porém, há mais mistérios entre o Ryalith Show e as bravatas eleitoreiras do que sonha nosso vão pensamento, e tal constatação surgiu de uma curiosa proposta do candidato ACM Neto, o qual visa coibir a violência na primeira capital do Atlântico Sul a partir da instalação de câmeras de vídeo, cuja implantação se estenderia para toda a cidade. O interessante é que este 'olhar' permanente - estratégia oriunda da sociedade contemporânea do controle e da vigilância, descrita há muito por Michel Foucalt -, foi defendida pelo candidato Neto como um componente inovador no combate ao crime. Sua não menos inovadora forma de nomear o projeto (Big brother), revela que sua assesoria busca, no mínimo, acompanhar o diapasão dos fenômenos midiáticos, pois se o "Big Brother" da TV globo possui como principal característica o acesso de enorme parte da população nacional à intimidade das "celebridades instantâneas", o escopo de sua proposta reside no monitoramento das ruas, em que o Estado coloca-se em situação de vigília sobre os indivíduos, prometendo levar para o "paredão" os transgressores.
O candidato não mediu esforços para tentar demonstrar que seu diferencial em relação aos demais era a juventude, com a afirmação constante de que possuia o "brilho nos olhos", marca, segundo ele, fundamental para conduzir Salvador a uma nova era, a um momento de ruptura com práticas políticas que não mais se alinham com a emergência dos novos tempos. Porém, é difícil acreditar em novos tempos - pelo menos em matéria de política -, uma vez que a grande maioria das tentativas de inaugurar novas rotas para o exercício político no Brasil invariavelmente se frustram, pela necessidade das tais alianças que objetivam garantir governabilidade, bem como o gosto pelo poder, o qual parece exercer sobre os que lidam com a coisa pública um fascínio semelhante ao de uma criancinha em relação a um doce.
Certamente que promessas para adoção de medidas impactantes na área da segurança pública devem pautar-se numa visão descentralizada da administração municipal, pois imaginar o governo estadual como agente isolado no processo de realização da paz social é, no mínimo, um equívoco. Sob esse ângulo, a idéia de espalhar câmeras pela cidade de Salvador não parece ruim, porém, o tema começa a se problematizar à medida que a estrutura logística necessária seria de proporções gigantescas, sobretudo, em razão de tratar-se de uma das maiores metrópoles do país, cujo investimento distoa da emergente prioridade que deve-se assumir em relação à educação e saúde, por exemplo. Não obstante, ele evadiu da explicação de como o município construiria tamanha infra-estrutura, preferindo recorrer ao tal brilho no olhar, o qual, segundo pode-se inferir, corresponderia a um traço fundamental que deve caracterizar o perfil do novo gestor da cidade soteropolitana.
Após o término do entediante debate, percebi que não se tratava de mais um, e sim, daquele que pode vir a transformar-se num referencial de como as soluções para os problemas públicos dependem do fulgor no olhar do que rege ou propõe-se administrar a máquina pública, pois, segundo a teatral atuação do supostamente fulgurante candidato, a qual, mais parecia uma paródia do personagem "jovem", de Chico Anísio, é preciso superar a reacionária atitude dos que tentam por freios ao audaz espírito da juventude, onde, querido leitor(a), mantive a expectativa permanente de que a qualquer momento ele repetiria o falacioso bordão: "Pô, eu sou jovem! Jovem é outra coisa, jovem é outro papo..."
Conquanto tenha visto frustrada a minha expectativa, debrucei-me a pensar a questão da vigilância através de câmeras, não apenas sob a noção de que o delírio presente nos discursos políticos são capazes de tecer as mais inusitadas peças, mas, também, compreendendo como os fenômenos da mídia repercutem de tal modo, que nem as disputas eleitorais deixam escapar a oportunidade para apropriar-se deles a fim de consubstanciar suas falácias.
Não desejo, querido amigo(a), que construa uma imagem distorcida de minha pessoa, pois também sou ainda jovem, mas devo confessar-lhe que uma dose de neurastenia às vezes se faz necessária para contrapor essas pulsões que nascem da vaidade e sede de conquistar a qualquer custo. Reconheço o valor das idéias e ações que tenham por objetivo compartilhar com as diferentes esferas estatais o compromisso de combate ao crime, mas, - à semelhança mítica - fazer da discussão sobre segurança uma oportunidade para manifestações explícitas de narcisismo é por demais cômico.
Entretanto, esse 'Narciso' às avessas, não propõe-se a contemplar apenas a sua própria imagem, mas, também, a do 'povo brother', na qual a câmera representa sua presença - ainda que virtual - nos espaços públicos, buscando garantir seu cintilante e ao mesmo tempo frio e distante olhar.
Maurício Alves.

















quinta-feira, 31 de julho de 2008

Divina câmara clara


O universo ilimitado de possibilidades para realizações humanas nos faz enxergar que essa inesgotável fonte criativa manifesta-se numa infinitude surpreendente, levando-nos a questionar se as tais "incapacidades físicas" não seriam um projeto especialmente desafiador de Deus para os seus portadores.
Após assistir um vídeo na internet, no qual o genial Stevie Wonder interpretava "Falling in love with Jesus" - hino do cancioneiro gospel americano -, algo começou a incomodar-me; pois a transcendência de sua qualidade artística eleva-o para além do virtuosismo músical, e instila em minha alma a fé de que o convívio nas trevas da cegueira carnal o capacitou, de algum modo, a pintar sua eterna noite com cores cintilantes.
Sem dúvida que a pulsão poética que está para além da palavra, a qual creio firmemente habitar em cada ser humano, afirmaria que a música está dentro de todos nós; portanto, inventar e recriar melodias é uma tarefa que todos, de certa forma, exercemos ao longo da vida. Porém, o Stevie sempre me passa a sensação de que seu canto angelical é a mais perfeita tradução de como uma alma exulta por poder romper as cadeias do que a humanidade resolveu denominar deficiência.
Sempre tive a convicção de que as pessoas estigmatizadas por alguma restrição física são as mais propensas para explorar a criatividade, e essa percepção resulta do fato de que elas, no fundo, não são portadoras de "necessidades especiais" ou características "incapacitantes", mas detentoras de uma maneira muito especial de lidar com sua subjetividade.
Nesse contexto, talvez a palavra especial verdadeiramente dê um melhor foco à perspectiva pela qual observo a questão, e, nesse sentido, me deixo guiar pelo pressuposto de que a perda de uma faculdade permite apurar tantas outras, o que nos leva inferir que a criatividade deve ser compreendida como a forma de inteligência caracterizada pela capacidade de adaptar, redefinir, tocar, ou simplesmente olhar, de uma maneira toda inovadora, tudo que nos circunda.
Por esse motivo, agradeço a Deus - e a quem mais poderia? - por guiar, com tanto carinho, nas inúmeras trevas da existência, aqueles que não se deixam limitar pela poda de nossos preconceitos, pois com um registro todo especial Ele fotografou cada um deles e guardou-os em seu memorial, no qual nem o volume dos fios de seus cabelos escapa; e, nesse registro, a generosa abertura do diafrágma em Sua câmara clara, lhes permite enxergar com olhos de águia; no obturador dela, Ele fez repousar uma velocidade que só não excede à da própria luz, que penetra-lhes o espírito, revelando, de infinitas maneiras, o quanto Sua criatividade faz de todos nós, a despeito de qualquer diferença, "a sua imagem e semelhança".
Glorificado seja o Teu nome para todo o sempre, Senhor Jesus Cristo!

terça-feira, 29 de julho de 2008

Mutantes: caminhos da alienação


A teledramaturgia no Brasil além de provar sua vocação para compor produções marcadas pela capacidade de interferirência na vida dos telespectadores - seja por engendrar modismos ou ideologias -, demonstra agora um período de tal modo ousado, que a utopia macabra, fruto da megalomania norte-americana, invade nossas telas, na qual seres mutantes personificam e projetam uma evasão da realidade capaz de assemelhar-se a qualquer engajamento ideológico holywoodiano outrora realizado.
Pois é, as novelas brasileiras que sempre se notabilizaram pelo fato de melhor incorporar a máxima "a arte imita a vida", aponta-nos, quem sabe, para uma era em que a ficção televisiva no Brasil não mais imita, e sim, 'cria a vida.' Pois essa é a tônica da novela Os mutantes, exibida pela tv Record, na qual uma geneticista psícopata manipula embriões em labaratório de modo a "aperfeiçoá-los", criando uma geração que carrega em seu código genético referências as mais diversas, as quais os dotam de poderes igualmente distintos.
Para além da percepção de que essa novela constitui-se apenas numa nada exitosa tentativa de plágio do clássico "A ilha do Dr° Monroo", e guia-se pela perspectiva da concorrência midiática - o que o faz, de fato -, ocorreu-me que essa utopia nos acompanha há muito tempo, e não reproduz apenas a maneira simbólica dos Estados Unidos da América marcarem o seu imperialismo, o qual se manifesta também nas produções de sua poderosa indústria cinematográfica, mas, arrisco dizer, que a desesperada tentativa humana de superar os limites impostos por nossa própria constituição biológica nos acompanha desde eras imemoriais.
A Bíblia nos relata que houve um homem, da geração de Caim, filho de Adão, chamado Ninrode, do qual provém a antiga expressão do Oriente médio:"Como Ninrode, poderoso caçador diante do Senhor", o qual fundou a proverbial cidade de Babel, situada na planície de Sinear, que em assírio é Bab-ilu, porta de Deus; em hebraico o verbo balal significa confundir(Gn10.10). De modo ainda que parcial, todos nós já ouvimos falar da história, na qual os homens, após o dilúvio, fizeram tijolos e fundaram essa cidade, a qual esperava-se que se torna-se o centro do mundo.(Gn11). Ora, sabe-se que uma torre presta-se ao propósito da vigilância, e compreendendo que aquela população derivava da que escapara da terrível enchente planetária - ou seja, Noé e seus filhos -, é de se especular que um certo temor apocalíptico se apoderasse deles, levando-os assim a edificar a grande torre de Babel.
O fato, é que, segundo as sagradas escrituras, Deus irou-se com os construtores da grande torre, pois o orgulho apoderou-se do coração deles à medida que conceberam o desejo de que a torre chegasse aos céus. Certamente a tentativa do homem tornar-se tal qual a transcendência Divina não se limita a manifestações de autodivinização, como foi o caso de César Augusto, em Roma antiga, mas estende-se a atitudes nas quais indivíduos, ainda que na ficção, buscam superar os limites de nossa matérialidade.
Há ainda um componente no mínimo curioso nessa história bíblica, ou seja, o castigo da confusão das línguas. Sem dúvida o desespero deve ter sido enorme, mas o ser humano possuia, em contrapartida, a dádiva da adaptabilidade, e essa lhe valeu para fazer da existência na terra algo muito interessante, pois as diferenças culturais, sociais e geográficas, provocaram a necessidade de edificação de torres não menos aldaciosas que a de Babel, as quais, segundo as palavras de Deus ao afirmar que "agora não haverá restrição para tudo o que intentarem fazer"(Gn 11:6), não permitem que a utopia da autodivinização humana se dilua.
Num exercício de reflexão, perguntava-me o que significaria a introdução de uma novela com tal característica no cenário do universo televisivo brasileiro, pois jamais ignorei o fato de que essas produções catalizam, de certa forma, alguma fração do inconsciente coletivo de nossa sociedade. Então um detalhe me chamou atenção: a novela em questão compõe-se do título "Os mutantes - caminhos do coração." Sim, eis o detalhe que me escapara, pois seguir os caminhos do coração nem sempre pode ser uma boa saída para a tentativa de fuga dos limites humanos, os quais são erroneamente interpretados como empecilhos à construção de nossas 'torres profanas'.

Portanto, qualquer semelhança não é mera coicidência, uma vez que a cidade de Ninrode era apenas uma espécie de prelúdio e tentativa frustrada do Super-Man americano, o qual "caiu do céu", como se para lá a geração do poderoso caçador houvesse migrado, transfigurando-se nessa espécie de 'semi-deus', para o qual o destino reservou o solo norte-americano como segunda casa. Que coisa inusitada, a pequena - super - criança agora está sob os auspícios do centro imperial do planeta, o qual, à semelhança de Babel, não poupará esforços para difundir a boa nova a partir de seu aparato ideologizante.
E nós, o que temos com essa história toda? Bem, ao que me parece, a lógica nos dá a relação existente entre a ideologia imperialista dos USA através da ficção e a não menos macabra novela brasileira, pois basta só que utilizemos as premissas certas que a conclusão brotará facilmente.
Vejamos: um país que não se livra da síndrome colonial não supera a limitação de não acreditar em sua própria originalidade; nessa perspectiva, resta-lhe, como "ilha", na qual a 'Santa cruz' é a vigilante torre imperial que não lhe desvia o olhar, produzir, à semelhança cultural do império, os seus super-bizarros, cujos idealizadores parecem conhecer apenas os piores caminhos do coração; a língua também representa um dos componentes essenciais à hegemonia imperial, pois, conquanto Deus a tenha dinamizado, heterogenizando-a como castigo, a soberba torre contemporânea busca uniformizá - la, e sua cartilha não limita - se ao anglicismo que, em certa medida, reflete um salutar dinamismo linguístico, mas expande-se para a idéia de que devemos copiar-lhe qualquer manifestação artística, ou seja, devemos falar a língua deles.
De certo que o avanço proporcionado pela engenharia genética e tantos outros ramos das ciências empíricas têm aberto portas para a imaginação e realizações outrora inconcebíveis, uma vez que, de certa forma, já estamos produzindo mutantes, os quais podem ser identificados pelo percentual de silicone e toxina butolínica que seus organismos carregam, e agora a tv brasileira importa mais um delírio do tio Sam, cuja influência não mais se limitará ao alienante modo de comportamento social através do vestir, falar e intervenções cirúrgicas, mas, quem sabe, pela exacerbação da pseuda crença na epopéia humana de avançar seu aperfeiçoamento genético.
Que Deus nos proteja.

sábado, 26 de julho de 2008

A arte da língua portuguesa




Não te amo mais.Estarei mentindo se disser queAinda te quero como sempre quis.Tenho certeza de queNada foi em vão.Sei dentro de mim queVocê não significa nada.Não poderia dizer nunca queAlimento um grande amor.Sinto cada vez mais queJá te esqueci!E jamais usarei a fraseEU TE AMO!Sinto, mas tenho que dizer a verdade: É tarde demais...

Agora leia de baixo para cima a partir do início de cada frase.
Pura arte de
Clarice Lispector

Falcão: Meninos, famílias e o tráfico




A perplexidade e apatia da sociedade brasileira frente ao crime que seduz, encarcera e ceifa a existência de uma parcela importante de nossa juventude, revelam que a família constitui-se como referencial primaz para o implemento de políticas públicas capazes de operar resultados não apenas pelo pragmatismo da norma jurídica, mas, principalmente, pelo norteamento dos valores da matriz familiar, os quais legitimam, de forma inconteste, a nossa condição humana.
Na direção desse pensamento, encontra-se a dimensão da subjetividade, a qual capacita o indivíduo a humanizar-se, à medida que esse valora o mundo que o cerca, pois o mesmo encontra-se num plano histórico e cultural. Nesse sentido, o engajamento de dois jovens brasileiros, o cantor de rap MV Bill, e o produtor musical Celso Athayde, ambos naturais do Rio de janeiro, extrapola a percepção de seus papeis social e histórico, pois “o bom combate”, expressão cunhada pelo apóstolo São Paulo, encontra, por assim dizer, reflexo e expressão no discurso e ação desses artistas.
Pois bem, percorrer a carreira e guardar a fé identifica o espírito com que Celso e Bill entregaram-se à realização de Falcão-Meninos do tráfico, um aldacioso projeto que consumiu oito anos de trabalho (1998-2006) percorrendo o Brasil em busca de compor um documentário que retratasse a vida de jovens envolvidos com o tráfico de drogas, cuja proposta era colocar em relevo as angústias, contradições, sonhos, esperanças e traços das relações familiares dos mesmos, e, ao ser veiculado na maior emissora do país, provocou fortíssimo impacto na sociedade brasileira.
A proposta inicial desdobrou-se à feitura do livro homônimo, o qual visa reproduzir os bastidores da gravação do documentário, bem como convidar o leitor(es) a uma reflexão sobre o tema, preconizando que “cada um de nós tem que se despir de todo ódio que nutrimos e de todo medo que desenvolvemos a partir dele”.
Fé, sonho e luta são palavras-chaves do livro, as quais transitam de maneira fluida e permanente, e constam na abertura, onde os autores, a partir de um verso, evoluem para a afirmação de que sabem “exatamente o peso do martelo que se encontra do lado de lá, pois por ele também já fomos martelados” - desabafam. Essa imagem traduz uma postura determinada a não permitir que as suas próprias vidas se diluam na perplexidade conveniente dos que fazem do exercício de ‘cruzar os braços’ o seu mantra favorito.
O livro Falcão-Meninos do tráfico foi escrito em gênero eminentemente narrativo, buscando cumprir assim a idéia esboçada por seus autores desde as primeiras linhas, uma vez que afirmam, e o fazem ao longo de toda a obra, que o propósito maior do projeto é o de produzir reflexão nos leitores. E de fato conseguem, à medida que o texto se faz ritmar sob uma linguagem ácida e implosiva, pois os mesmos não deixam passar incólume até mesmo prenoções que circulam em seu próprio inconsciente, fruto da ideologia de uma elite que, segundo Athayde, se faz sintetizar na frase “o sistema é branco e opressor”. Esse dardo inflamado de provocação revela uma certa ambigüidade no aparente sinal de isenção esboçado por eles, ao afirmar que a reflexão se constitui no objetivo fundamental da obra. Tal postura não deve, no entanto, ser lida e reduzida como contraditória, pois não desconsideremos o fato de que Bill e Celso estiveram “no olho do furacão”, ou seja, a opção de romperem com o propalado “determinismo” da falta de oportunidades lhes confere uma desenvoltura tal, que impõe o risco de confundir-se com parcialidade, embora tal elemento seja inevitável, uma vez que o livro caracteriza-se pela coragem dos autores marcarem, de forma inequívoca, sua posição em relação ao tema.
Bill e Celso encabeçam o projeto CUFA -Central única das favelas-, na qual buscam contribuir para o resgate da auto-estima daqueles que o sistema não enxerga. Dar visibilidade ao drama dos falcões se mostra deveras difícil, pois, no livro, os autores acentuam a falência das ações do Estado nessa questão, as quais se reduzem a uma eminente e inoperante política de repressão policial, observando também a falta de interlocução no seio da própria sociedade brasileira ao não enxergar a condição humana desses jovens.
Embora todos reconheçam a indissolubilidade da noção da família constituir-se em partícula-mãe da sociedade, percebe-se que o livro transita numa espécie de campo minado, pois em um dos relatos, Athayde discorre sobre uma, dentre tantas experiências impactantes que teve ao longo do projeto, na qual testemunhou o desespero de duas mães: uma chorava a morte de seu pequeno falcão, e a outra, de seu filho PM, morto em combate. Nesse episódio, não lhe escapa o fato de que as duas são pretas e pobres, vítimas de um mesmo drama, de um mesmo sistema, da mesma violência que lhes marcará a alma para sempre. Ora, onde estaria então o pomo de contradição nesse acontecimento tão corriqueiro? Para os autores, reside na falência do vigor de todos nós: do Estado, pois os seus equívocos e incompetência refletem um descompromisso histórico; da sociedade, pois a mesma desconhece o seu papel de artífice desse mesmo Estado, e opta por enclausurar-se, omitir-se, empurrando-nos a um beco aparentemente sem saída. E nessa ação de “limpeza” perpetrada pelo Estado brasileiro no âmbito das ações policiais, Celso identifica uma cruel realidade, na qual o aparelho estatal funciona como anteparo a uma classe dominante, a qual, bem como o Estado, não compartilhará das lágrimas das duas mães, que, segundo o próprio escritor, “podiam perfeitamente ser irmãs de sangue e, naquele momento, eram irmãs de dor, irmãs de sangue derramado pela arma da ignorância”.
Eis uma das abstrações possíveis que se pode realizar acerca deste inquietante livro, ou seja, a compreensão de que as ações públicas devem guiar-se sob a noção de que elas incidem, em todas as suas dimensões, sobre um núcleo social a que denominamos família, seja qual for a sua configuração, do qual emergem os elementos mais sublimes que saltam da subjetividade humana, os quais nos norteiam a uma vida repleta de inventividade, e que se traduzem em esperança, fé, compaixão, alegria, amor, os quais refletem, em qualquer comunidade, seja ela situada na Vieira Souto ou na Cidade de Deus, o quanto a nossa complexidade nos torna diferentes e tão maravilhosamente iguais.


“Olha aí! É o meu guri!”


A significância da família para os jovens cognominados falcões não é de fácil compreensão, pois a mesma figura, de acordo com os registros verificados ao longo de todo o texto, como o elemento no qual os mesmos se ancoram para justificar a sua permanência no universo do crime, revelando uma contradição perturbadora, uma vez que seu ingresso representa um cisma devastador na esperança de realização de um outro caminho, à medida que as estatísticas acerca da expectativa de vida, bem como um implacável e violento ataque ideológico promovido por todos os segmentos sociais diluem, dia a dia, as chances de uma ruptura com o tráfico de drogas.
A família constitui referencial fundamental à vida de qualquer pessoa, inclusive na dos pequenos falcões, e tal componente é constantemente mencionado nas entrevistas realizadas. Porém, a forma como esses jovens decodificam e interpretam o seu papel no seio familiar reflete um distanciamento, uma evasão de si mesmo, uma quase absoluta solidão, a qual se faz aparentemente superar quando afirmam ser os mantenedores de seus lares. Esse papel encontra correspondência no fato de que boa parte desses garotos tem esposas, filhos, enfim, já incorporaram (forjam) precocemente uma identidade, a qual se realiza através da autonegação, da rejeição de sua própria infância.
“Cara”, alcunha pela qual os autores denominam um dos jovens entrevistados, testifica a percepção de que seu papel está circunscrito ao cumprimento de deveres com a família e o tráfico, pois diz que sua esposa deu à luz um “neném”, e a possibilidade de saída do tráfico se esvai uma vez que pleitear um emprego significaria não poder sustentar a criança: “Minha mulher? Ta lá no hospital agora. Teve neném quase agora. Aí, ta lá no hospital com o neném, aí mesmo é que eu não posso sair mesmo, porque tenho que ajudar ela mais ainda e ajudar minha filha que nasceu agora, entendeu? Se eu sair para ficar procurando emprego, como que eu vou sustentar minha filha? Não tem como”.
A mulher, a mãe, o filho, os irmãos, estão sempre à margem, sempre à espera desse ‘herói’ que faz da vigilância noturna uma transcendência para seguir em frente, na qual reveste-se dos traços que caracterizam o mocinho e o bandido.
Concluir simplesmente que a família desses jovens falhou ao não conseguir cumprir o papel de espaço primeiro para a construção e expansão de um indivíduo pleno do ponto de vista intelectual e afetivo, significa mascarar o problema, conduzindo-nos ao risco de um reducionismo causal que não responde de forma convincente, pois a violência que é parte integrante e constituinte do caráter desses jovens, manifesta-se também como fruto da violência simbólica a que somos todos submetidos, diariamente, nos out doors, Shopping Centers, em todos os tipos de mídia, a qual muitas vezes colocam esses jovens diante de uma encruzilhada, ou seja, permanecer acalentando o sonho de incluir-se no restrito e perverso sistema neoliberal, ou buscar, com instinto e olhos de falcão, ao menos simular essa inclusão.




Falcão: um desafio para todos nós

As contradições de nossa ‘família-pátria-mãe-gentil’ remontam à linha divisória da exclusão, traçada no passado e mantida no presente, que se afigura “grego”, contribuindo cada vez mais para a convicção de que o típico retrato homogêneo da família difundida nos comerciais de margarina, pintados com cores em quadros televisivos, não mais disfarça as vísceras de uma sociedade que adoece em seus paradoxos.
Nesse sentido, os autores de Falcão-Meninos do tráfico, ao assumirem o desejo de reproduzir de forma fidedigna os bastidores do documentário, refletem uma certa rebeldia, pois suas biografias testemunham que ambos tocaram a mesma linha tênue que separa os que tenazmente resistem às sugestões das desigualdades sociais, dos que sucumbem ante as lacunas psíquicas cujo nascedouro reside, dentre outros, também na desagregação familiar.
Nesse contexto, os autores encetam, ainda que de forma implícita, uma sutil convocação ao enfrentamento deste enorme desafio, do qual o Brasil insiste em evadir-se, qual seja criar alternativas que se interponham ao caminho sedutor da criminalidade para jovens vulnerabilizados pela ineficácia das quase inexistentes políticas públicas. Ambos concordam que o tema é extremamente difícil, de acordo com suas próprias palavras, “a questão é ampla, complexa e historicamente concentrada, tal como a renda do país”. Nessa perspectiva, os mesmos compreendem que o agravamento das mazelas sociais além de ligar-se à tão conhecida péssima distribuição de renda vincula-se à não menos péssima distribuição de responsabilidades. Contudo, embora não discursem no sentido de oferecer um “veredicto” para a questão, provocam os leitores ao afirmarem que a interpretação do tema tratado deve ser feita “da forma que cada um conseguir”.
Á medida que se lê Falcão-Meninos do tráfico, percebe-se que, embora os autores observem a transversalidade do tema, pois o mesmo se faz conectar a qualquer dimensão da existência social-humana, ou seja, educação, saúde, habitação, segurança e tantas outras, os mesmos enfatizam que o assunto do livro é a vida desses jovens que se encontram em “situação de risco”. O estímulo que moveu Bill e Celso a se colocarem como porta-vozes de uma questão tão delicada reside, sem dúvida nenhuma, no trabalho que ambos já desenvolvem em suas próprias comunidades - Cidade de Deus e baixada fluminense -, porém não escapa o fato de ambos assumirem, publicamente, o grande referencial que suas mães representam em suas vidas. Celso Athayde expressa no próprio texto a admiração e afeto por aquela que resumiu ser sua maior inspiração; Bill, em entrevista ao programa do Jô da tv globo, já manifestou semelhante sentimento. Portanto, é perceptível que esses referenciais influenciaram em alguma medida esses ativistas das causas sociais num projeto de tamanha envergadura, pois os falcões, ao longo da obra, referem-se com muita freqüência às suas mães, seja para narrar que as perderam muito cedo, como também para justificar a sua entrada para o tráfico de entorpecentes. Embora a identificação dos autores não se evidencie de forma explícita nesse aspecto, ela se faz observar à medida que os mesmos afirmam, de maneira categórica, que o trabalho se funda na vida desses jovens, o que os leva, conseqüentemente, ao centro da relação intrafamiliar dos mesmos, no qual a mãe, - não o pai – figura como o maior de seus vínculos.
Portanto, o livro expressa uma inquietude que extrapola a noção de que o posicionamento de Athayde e Bill reflete apenas um desejo de mobilizar-se em razão de ambos vivenciarem uma realidade que produz três alternativas: engajamento, fuga ou conformismo, mas, também, clareza do quanto o ser humano é um ser político. E esta obra nos mostra que é possível refletirmos e encontrarmos alternativas juntos, pois se os falcões resultam, também, do desmantelamento familiar, essa (família) se fragmenta como conseqüência de nossa inércia, e as saídas estão dentro de nós, a partir de nós mesmos. Nesse sentido, é oportuno parafrasearmos os autores: “Mas não importa o tempo que precisaremos para sermos compreendidos, para sermos ouvidos. A única coisa que nos importa é que a luta tem que continuar.”

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Viagra: uma ironia Olímpica




Queridos amigos, ao deparar-me com a notícia de que as Olimpíadas de Pequim se notabilizariam provavelmente mais pelo uso do viagra do que por quebra de records ou mesmo o já reconhecido talento oriental para realizar aberturas de grandes eventos esportivos, tomei um susto.
Por mais esdrúxula que possa parecer, a informação é verdadeira, e tal preocupação foi manifesta por ninguém menos que o Dr°Parisotto, ex-cientista do Instituto Australiano de Esporte(AIS). O pesquisador figura como principal responsável em testes realizados para descoberta da substância EPO, hormônio cuja sintetização é realizada em laboratório. Ele afirma que o medicamento em questão(Viagra), por promover a vaso dilatação sangüinea não apenas no órgão genital masculino, pode representar importante recurso para os atletas. Ou seja, o medicamento que causou enorme reboliço nos anos noventa, parece querer revigorar seu protagonismo no ambiente das discussões médicas, esportivas e na sociedade de uma maneira geral.
Contudo, este verdadeiro companheiro masculino para todas as horas - ou pelo menos para 'aquelas horas' -, nos coteja com a possibilidade de também constituir-se num grande aliado para bêbes portadores de desajustes pulmonares, informação que obtive ao ligar meu aparelho televisor pela manhã. Isso significa que as crianças que nascem com sérias limitações para respirar podem ser salvas pelo "santo remédio".
Quem diria... o viagra, após sinalizar para a comunidade masculina a possibilidade de "definitiva" vitória sobre a impotência sexual, causa um novo impacto, pois de uma só vez descortinou triplamente seu potencial: além de golpear o pesadelo da impotência, revela-se um aliado eficaz para a élite do esporte mundial e criancinhas, cuja imagem, para as últimas, em hipótese alguma se imaginou associar.
O interessante neste contexto é que o uso do medicamento, embora não deixe muita dúvida ética quanto à finalidade terapêutica e de melhoria na performance sexual, não passa incólume sua utilização quando se trata de ganho em termos de rendimento dos atletas. Traduzindo: 'para amar pode, para competição não pode.'
Bem, essa talvez seja a tônica do Comitê Olimpico Internacional (COI), embora tal decisão, ao que tudo indica, será postergada para o término das Olimpiadas de Pequim.
No entanto, querido leitor(a), há uma pergunta que não quer calar: o que o COI estaria temendo exatamente; uma possível disparidade competitiva oriunda do uso de droga suplementar artificial, ou quem sabe uma possível perda de foco dos atletas uma vez que o remédio prodigio presta-se essencialmente ao auxílio das atividades na alcova? Bem, no primeiro caso, deve-se considerar, pelo menos em tese, que a melhoria da performance nas competições não seriam substancialmente alteradas, pois se imaginarmos um uso coletivo da substância, todos ganhariam proporcionalmente; já na segunda hipótese, nos resta uma consideração intrigante: será que a alta cúpula do Comitê teme o contrário, ou seja, uma queda substâncial de rendimento dos atletas sob hipótese de que o estímulo adcional seja canalizado para a atividade extra competição?
Enfim, resta-nos aguardar o desdobramento desse irônico e inusitado capítulo preambular da aventura olímpica em Pequim.
Sem mais,

Maurício.

25/07/2008.

vôo tenso




Certamente a tecnologia nos remete a um estado de sensações ambivalentes, as quais podem traduzir-se em tensão e euforia - componentes presentes na alma daqueles que se aventuram a voar nas asas da 'liberdade tecnológica.'
Para mim, tenho por certo que esta extraordinária ferramenta chamada internet, me tem despertado ao mesmo tempo encanto e desespero. Sim, pois neste exato momento, acabo de criar o meu blog, e não sei ao certo o que isso significa. Para mim, que sou um curioso inveterado por quase tudo, não faço muita idéia do significado de tal possibilidade; só sei que esta multiplicidade de informações internáuticas me conduziram à criação do blog, e continuo a me perguntar para onde isso me levará e qual o significado dessa maravilha.
Calma, amigos, não quero que a perplexidade - que já inflama por certo os seus instintos - desperte o desejo de me apedrejar, uma vez que a percepção de que estou a agir como criança em tenra idade a desbravar mundo desconhecido, certamente já se fez desnudar aos seus olhos; e, para isso, o melhor argumento que tenho para aplacar tal pulsão é o fato de que não passo de um mediocre curioso, sem grandes ambições neste vasto oceano de comunicação. Desejo, ingenuamente, compartilhar um pouco de minha euforia e desespero, ao escrever estas linhas (e por que não dizer: mal traçadas linhas).
Bem, o fato concreto desta minha primeira postagem, é afirmar-lhes que este espaço visa compartilhar conhecimento, e buscar, junto aos que sentem-se envolvidos como eu nesta eufórica e desesperadoramente fantástica via global, aprender, cominicar, falar sobre fotografia, cinema, política, enfim, um pouco de tudo que acossa a alma humana; ou seja, fundamentalmente dizer, verbalizar o que geralmente se ignora: aquelas pulsões da alma que ensejam momentos de reflexão e, sobretudo, aprendizado.
O meu anseio é poder fazer deste espaço um marco de reflexão sobre assuntos diversos, buscando diálogo permanente com este infindável universo da cultura e história humanas, onde tentarei ressaltar minhas predileções sem temer o conflito de idéias, pois a crise - conquanto não esteja dizendo nada de novo - constitui-se num manancial de infindáveis oportunidades.
Portanto, queridos amigos, não apelo à vossa paciência, pois tal qual um candidato que se exaspera às vésperas de uma eleição, estou a me comportar, buscando, tanto quanto possível, tecer palavras meticulosamente escolhidas, as quais traduzem, de acordo com Michael Foucalt, uma relação de força, de jogo, de afrontamento mesmo, embora o "A que endurecer, sem perder a ternura jamais", de Che Guevara, melhor ilustre o misto de sensações que imanta o meu coração neste momento.
No mais, companheiros, desejo não apavorar-me em demasia com o penhasco de descobertas neste meu primeiro vôo, o qual não é propriamente aquilino, e, se o é - embora corra o risco de ser interpretado como pretencioso -, é porque não encontrei analogia melhor.
Megalomanias à parte, espero compartilhar da companhia dos que não se deixam subjugar pela antipatia gratuita, pelo descrédito imediato, e que buscam atuar, no exercício da leitura,
como arquétipos do que lecionou o apóstolo Paulo: "lê de tudo e retende o bem".
Com carinho,

Maurício.



25/07/2008